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Ciclo de Conferências e Mesas Redondas em Comemoração ao Centenário de Morte de Euclides da Cunha

Programação completa


Ciclo Comemorativo do Centenário da Publicação de Os Sertões

Euclides da Cunha e Raul Pompéia (26/06/2001)
 

(Conferência proferida na Academia Brasileira de Letras, em 26 de junho de 2001, durante o ciclo Centenário da publicação de Os sertões.)

Alexei Bueno

É um mistério, na vida das cidades e na dos grandes escritores que as imortalizaram, o destino que terão os traços físicos, materiais, das suas passagens pela terra. Nascidos nela ou não, a cidade do Rio de Janeiro ficou intimamente relacionada aos quatro maiores prosadores brasileiros, Machado de Assis, Raul Pompéia, Euclides da Cunha e Guimarães Rosa. Do primeiro, nada restou. Sua casa natal desapareceu em época remota; o seu chalé do Cosme Velho, onde escreveu a maior parte da sua obra, foi criminosamente demolido na década de 30, tendo sido conservada, como galhofa máxima, a grande lápide de mármore ali posta em sua homenagem logo após a sua morte, atualmente no Museu Histórico Nacional. Extraordinário país que destrói as casas e conserva as placas! Seu túmulo, enfim, o "leito derradeiro" de sua Carolina, onde todos os domingos, entre as suas respectivas mortes, ele ia pôr flores, foi lamentavelmente destruído no ano passado. Hélas! De Euclides restou a famosa barraquinha onde escreveu Os sertões, a casa onde viveu e a ponte que reconstruiu, todas em São José do Rio Pardo, para onde também levaram seus ossos e os do filho que morreu por sua memória. Nada de material em Cantagalo ou no Rio de Janeiro. São Paulo, de fato, encampou a devoção euclidiana, chegando mesmo a conceber um município com o nome de Euclides da Cunha Paulista. De Guimarães Rosa, afortunadamente, sobrevivem a casa natal em Cordisburgo e, em Copacabana, o apartamento onde escreveu algumas das maiores maravilhas da nossa língua. De Raul Pompéia, finalmente, existe ainda a casa natal, em estado ruinoso, a velha casa de fazenda em Jacuecanga, Angra dos Reis, onde nasceu a 12 de abril de 1863. Sobrevive também o seu túmulo, o seu triste túmulo de suicida. Mas sobretudo sobrevive, na Rua Ipiranga, em Laranjeiras, um casarão imenso, belíssimo, dos mais belos do neoclássico brasileiro, antiga fazenda, antiga residência do grande jurisconsulto Teixeira de Freitas, atualmente abrigando o Instituto João Alves Afonso, da Sociedade Amante da Instrução. Em 1873, porém, nele funcionava o Colégio Abílio, de Abílio César Borges, o célebre Barão de Macaúbas, o maior educador do Império. E nele ingressou nesse ano o menino Raul Pompéia, aos dez anos de idade. E até hoje, ao passarem pelo casarão, todas as pessoas que lêem apontam para ele e afirmam o que ele nunca foi, mas passou definitivamente a ser: Aqui era o Ateneu.

"Assim…", como escreveu Fernando Pessoa: "…a lenda se escorre / A entrar na realidade, / E a fecundá-la decorre. Embaixo, a vida, metade / De nada, morre." Se substituirmos lenda por arte, e a arte passou, sem dúvida alguma, a cumprir o papel pretérito da lenda na civilização, teremos algo da ligação entre Pompéia e o seu colégio real / imaginado, e algo da de Euclides com o fato histórico real / interpretado a que assistiu a ao qual deu uma dimensão transcendente. Muito mais que no caso de Pompéia, estabeleceu-se entre Canudos e Euclides uma simbiose, uma espécie de fusão cinematográfica, indestrutível. Se Canudos transcende em muito Euclides, assim como Euclides transcende em muito Canudos, é impossível, de qualquer maneira, pensar em um sem o outro. O conflito do Contestado, por exemplo, não teve o seu Euclides, e, descontadas as proporções, nem se aproximou de um Canudos na alma nacional. Não saberíamos o que seria Tróia sem Homero, sejam o que tenham sido Homero e Tróia, nem sabemos quem seria para nós Vasco da Gama sem Camões. Sem Raul Pompéia, indubitavelmente, Abílio César Borges seria uma curiosa figura da educação no Império, lembrada nos capítulos inciais das biografias de uns tantos grandes brasileiros.

Raul Pompéia descendia, pelo lado paterno, de família mineira, deslocada de Minas para Guaratinguetá e depois para Resende, na Província do Rio de Janeiro, por causa da perseguição à Inconfidência Mineira, na qual estava envolvida, tendo inclusive graus de parentesco com o Tiradentes, de quem Pompéia seria sobrinho, não sabemos ao certo em que grau. Sua mãe era de ascendência portuguesa. Tendo nascido em 1863, dois anos antes da eclosão da Guerra do Paraguai, é certo que passou toda a infância a ouvir narrativas bélicas dessa conflagração, terminada quando tinha sete anos de idade. Transferido para o Rio, viveu a experiência do Internato. Nunca na vida concreta, guardou qualquer mágoa de Abílio César Borges, que imortalizou na caricatura terrível de Aristarco. Para o próprio, para o Barão de Macaúbas, escreveu Castro Alves - sobre quem Euclides da Cunha se manifestaria criticamente, e de maneira díspare, em duas ocasiões - os seus três primeiros poemas, como esses dois sonetos dos 14 anos de idade, repletos ainda de ecos da Independência e da epopéia napoleônica:

SONETOS AOS ANOS DO MEU PREZADO DIRETOR

Mancebos! De mil louros triunfantes
Adornai o Moisés da mocidade,
O Anjo que nos guia da verdade
Pelos doces caminhos sempre ovantes.
Coroai de grinaldas verdejantes
Quem rompeu para a Pátria nova idade,
Guiando pelas leis sãs da amizade
Os moços do progresso sempre amantes.

Vê, Brasil, este filho que o teu nome
Sobre o mapa dos povos ilustrados
Descreve qual o forte de Vendôme.

Conhece que os Andradas e os Machados,
Que inda vivem nas asas do renome,
Não morrem nestes céus abençoados!

*

Mestre, Mestre querido, Pai de Amor,
As glórias que conquistas co'a razão,
Enchendo de prazer teu coração
T'atraem grandes bênçãos do Senhor!

Os teus louros têm mais vivo fulgor,
Que os ganhos ao ribombo do canhão;
Que os de um Aníbal, d'um Napoleão,
Alcançados das mortes entre o horror.

Sim! Que os louros terríveis que Mavorte
Ao soldado concede em dura guerra,
Todos murcha a idéia só da morte!

Mas nos teus vero mérito se encerra,
Que não cede do tempo ao braço forte,
E alcançam justo prêmio além da terra!…


Apenas três anos depois de Pompéia, e portanto da sua mesma geração, nascia Euclides da Cunha em Cantagalo, em 20 de janeiro de 1866, de pai baiano e mãe fluminense. A mesma ambiência nacional, portanto, os envolveu, contribuindo de alguma maneira para o surgimento em ambos de uma mesma obsessão pela Justiça, que levaria o primeiro à feroz militância abolicionista e republicana em que se enredou, e que levaria o segundo, em 1888 - ano em que Pompéia publicava O Ateneu - a transformar-se no célebre "cadete da baioneta", após atirá-la aos pés do Ministro da Guerra do Império moribundo. De certa maneira, instalado o novo regime, ambos foram recompensados pelo que sofreram em sua militância no período imperial. Expulso do Exército, a ele foi Euclides reconduzido, e se não se elevou a grandes cargos no período florianista - período em que Pompéia, anteriormente expulso da Academia de Direito de São Paulo, se tornou diretor da Biblioteca Nacional - foi por sua inata timidez ao se encontrar com o Marechal de Ferro, como narrou em carta célebre. 1888 e 1889 são, de fato, os anos decisivos desses dois destinos. Pompéia chega precocemente ao apogeu da sua obra literária, e vai extraviar-se na política. Euclides alcança o seu momento de maior evidência política, e a partir dele derivará quase inconscientemente para a literatura e para a genial revelação da nacionalidade.

Em ambos manifestou-se, irrefreável, a vocação do ataque e da sátira, o primeiro sobretudo em Euclides, e através de um processo cruelmente analítico, a segunda principalmente no autor de O Ateneu. A prova do irrefreável dessa tendência encontramo-la na demonstração da lembrança carinhosa deste pelo velho mestre, em nada destoante dos ingênuos mas já bem escritos panegíricos infantis do grande poeta baiano, como vemos no artigo que escreveu quando da morte do seu "Aristarco", em 1891, no Jornal do Commercio, apenas quatro anos antes da sua própria morte:

"Sábado deixou de existir o Dr. Abílio de César Borges, Barão de Macaúbas, que foi com justiça o mais considerado dos educadores da mocidade brasileira. Cheio de entusiasmo pelas reformas liberais do ensino, o diretor do afamado Ginásio Baiano e do Colégio Abílio foi um propagandista ardente e eficacíssimo do melhoramento das condições do ensino primário e secundário; e os consideráveis estabelecimentos, que por longos anos sob a direção dos seus ativos e zelosos cuidados distribuíram educação e ensino a um sem número de rapazes, poderão em todo o tempo ser admirados como os modelos os mais perfeitos que na melindrosa pedagogia dos internatos se conseguiria instituir. Significando uma fecunda existência de trabalhos e dedicação pela causa sagrada da educação popular, seu nome será sempre lembrado em grata e luminosa recordação."

À margem de um boletim de Raul Pompéia, no ano de sua entrada no Colégio Abílio, escrevera o velho mestre: "É um menino de grandes esperanças!" Cumpriu-se, sem dúvida, o vaticínio, mais na obra do que na vida infeliz e breve daquele menino promissor. A noção da sordidez humana, da decepção perene, já transparece desde a primeira página de O Ateneu. É, em outro registro, algo do pessimismo schopenhaueriano do Machado de Assis de Memórias póstumas de Brás Cubas, e na nossa opinião aproximamos aqui os dois maiores romances brasileiros do século XIX. Mas recordemos a chegada do menino Sérgio:

"Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai, à porta do Ateneu. Coragem para a luta."

Bastante experimentei depois a verdade deste aviso, que me despia, num gesto, das ilusões de criança educada exoticamente na estufa de carinho que é o regímen do amor doméstico, diferente do que se encontra fora, tão diferente, que parece o poema dos cuidados maternos um artifício sentimental, com a vantagem única de fazer mais sensível a criatura à impressão rude do primeiro ensinamento, têmpera brusca da vitalidade na influência de um novo clima rigoroso. Lembramo-nos, entretanto, com saudade hipócrita, dos felizes tempos; como se a mesma incerteza de hoje, sob outro aspecto, não nos houvesse perseguido outrora, e não viesse de longe a enfiada das decepções que nos ultrajam."

Há algo da força do futuro estilo euclidiano, indubitavelmente, na última expressão, "a enfiada das decepções que nos ultrajam". De certa maneira, na verdade, algo do nojo e da indignação vazados por Pompéia na sua descrição de um microcosmo individual pode ser reencontrado no macrocosmo histórico-social da epopéia em prosa que é Os sertões. E bem poucas páginas depois da introdução aqui lembrada, deparamo-nos com a primeira caricatura - caricatura de um escritor que era também magnífico desenhista e caricaturista terrível, como comprovam sobretudo os seus desenhos da fase da imprensa paulistana - do mestre do Internato. E é espantoso pensar, ao lê-la logo depois do necrológio do personagem real, a capacidade de uma criança de gênio em perceber os ridículos e os baixos móveis da alma adulta até mesmo em pessoas que conscientemente admirava:

"O Dr. Aristarco Argolo de Ramos, da conhecida família do Visconde de Ramos, do Norte, enchia o império com o seu renome de pedagogo. Eram boletins de propaganda pelas províncias, conferências em diversos pontos da cidade, a pedidos, à sustância, atochando a imprensa dos lugarejos, caixões, sobretudo, de livros elementares, fabricados às pressas, com o ofegante e esbaforido concurso de professores prudentemente anônimos, caixões e mais caixões de volumes cartonados em Leipzig, inundando as escolas públicas de toda a parte com a sua invasão de capas azuis, róseas, amarelas, em que o nome de Aristarco, inteiro e sonoro, oferecia-se ao pasmo venerador dos esfaimados de alfabeto dos confins da pátria. Os lugares que os não procuravam eram um belo dia surpreendidos pela enchente, gratuita, espontânea, irresistível! E não havia senão aceitar a farinha daquela marca para o pão do espírito. E engordavam as letras, à força daquele pão. Um benemérito. Não admira que em dias de gala, íntima ou nacional, nas festas do colégio ou recepções da coroa, o largo peito do grande educador desaparecesse sob constelações de pedraria, opulentando a nobreza de todos os honoríficos berloques.

Nas ocasiões de aparato é que se podia tomar o pulso ao homem. Não só as condecorações gritavam-lhe do peito como uma couraça de grilos: Ateneu! Ateneu! Aristarco todo era um anúncio. Os gestos, calmos, soberanos, eram de um rei - o autocrata excelso dos silabários; a pausa hierática do andar deixava sentir o esforço, a cada passo, que ele fazia para levar adiante, de empurrão, o progresso do ensino público; o olhar fulgurante, sob a crispação áspera dos supercílios de monstro japonês, penetrando de luz as almas circunstantes - era a educação da inteligência; o queixo, severamente escanhoado, de orelha a orelha, lembrava a lisura das consciências limpas - era a educação moral. A própria estatura, na imobilidade do gesto, na mudez do vulto, a simples estatura dizia dele: aqui está um grande homem… não vêem os côvados de Golias?!… Retorça-se sobre tudo isto um par de bigodes, volutas maciças de fios alvos, torneadas a capricho, cobrindo os lábios, fecho de prata sobre o silêncio de ouro, que tão bem impunha como o retraimento fecundo do seu espírito, - teremos esboçado, moralmente, materialmente, o perfil do ilustre diretor. Em suma, um personagem que, ao primeiro exame, produzia-nos a impressão de um enfermo, desta enfermidade atroz e estranha: a obssessão da própria estátua. Como tardasse a estátua, Aristarco interinamente satisfazia-se com a afluência dos estudantes ricos para o seu instituto. De fato, os educandos do Ateneu significavam a fina flor da mocidade brasileira."

No caso de Pompéia, em que essa espécie de volúpia de combate parece ter sido ainda mais visceral e precoce do que em Euclides, podemos dizer que, em seguida à experiência básica do Internato, que aqui relembramos, nele se inocula - e esta é a expressão de um de seus amigos íntimos - a doença que o levará a morte: a política. E agregada à política, obviamente, a atividade que lhe roubará em grande parte, nos seus breves 32 anos de vida, à literatura: o jornalismo. Raul Pompéia, desde a mais tenra adolescência, tornou-se um desses obcecados pelas causas alheias, sobretudo pelas causas perdidas, no que também se aproxima bastante de Euclides da Cunha. Se Os sertões foi o "livro vingador" deste último, O Ateneu não deixou de ser o "livro vingador" daquele. Seria interessante imaginar qual a posição tomada por Pompéia se tivesse vivido para assistir à Guerra de Canudos. Quem prevaleceria, o republicano, o jacobino feroz, o florianista, ou o implacável defensor dos fracos? Perceberia ele o jagunço como Euclides percebeu, ou acreditaria na balela da ameaça monárquica? Mistério. Bilac, por exemplo, que era antiflorianista e foi inclusive preso por Floriano, escreveu na imprensa de São Paulo clamando pelo massacre implacável dos revoltosos, mas a verdade é que a reflexão profunda nunca foi o forte do popularíssimo parnasiano. O fato é que, como todos os homens da sua geração, a paixão primeira, feroz e justíssima, de Raul Pompéia, foi a Abolição, à qual se seguiria a República. Há algo de um auto-retrato na descrição - em estilo que bem se aproximaria outra vez ao de Euclides - no primeiro capítulo de O Ateneu, que ele faz de Jorge, o filho de Aristarco, que se nega em plena festa do Internato a beijar a mão da Princesa Imperial Regente, assim como meses após a publicação do livro o cadete Euclides da Cunha atiraria a sua baioneta aos pés do Ministro da Guerra em plena Escola Militar: "Era republicano o pirralho! Tinha já aos quinze anos as convicções ossificadas na espinha inflexível do caráter!" E bem assim deve ter sido o adolescente Raul Pompéia. Espécie de místico revolucionário, no sentido em que o foram um Saint-Just ou um Che Guevara, mas de ação exclusivamente verbal, podemos dar uma amostra do tom feroz de sua prosa política através de parte de um texto de 1882, baseado em um pensamente de Luís Gama, o grande Luís Gama, de quem Pompéia foi amigo e secretário, e sobre a morte de quem escreveu uma página célebre. Curiosamente, tanto em Pompéia como em Euclides, os anos passados em São paulo foram de inegável importância biográfica. Mas ouçamos a voz panfletária do futuro romancista:

"SRS. ESCRAVOCRATAS

Perante o Direito é justificável o
crime de homicídio perpetrado pelo
escravo, na pessoa do senhor.

Luís Gama

Não me dirijo aos homens honestos, que, conquanto não se achem em condição de fazer o sacrifício heróico da pseudopropriedade escrava não discutem a criminalidade do abuso escravocrata e consideram com o peso de um remorso a necessidade criada por sua fraqueza. No dia em que se decretar a abolição do trabalho escravo, não há de aparecer nenhuma resistência por parte desses homens…
Dirijo-me aos escravocratas puros, quero dizer, aos mais vis; dirijo-me aos senhores de escravos que têm o desfaçamento de falar em direitos em questão de escravidão; aos que viperinamente assoalham que a propriedade escrava repousa sobre mui sólidas bases. Como disse um bandido nem pasquinete boçal e retrógrado que se publica em Mojimirim. Escrevo para os cérebros escuros e os corações fechados dos homens-ursos, que não querem admitir que a tirania do eito é a concretização de um crime e o rabo do chicote não passa de um cetro infamante. Escrevo para os maus.

Caim é que deve ler-me.

O homem que tendes na escravidão possui, debaixo dessa pele obscura que desprezais, uma carne e uma dor, um coração e um sentimento, um cérebro e uma inteligência. O homem aniquilado pelos vossos desprezos, ainda é um homem.

Como homem o escravizado tem o direito de pensar, tem o direito de odiar, tem o direito da dor.

E o atormentais entretanto, como se lhe não assistisse nem o supremo direito do gemido e vos indignais, surpresos, quando ele vos odeia e dais uma gargalhada, quando ele, a criatura humana, agita no cérebro um pensamento!…

E o fazeis sinceramente, bem o sabemos. Tendes a sinceridade da fera, quando despedaça a vítima, e tendes a consciência tranqüila do asno que despede um couce. Bem o sabemos. Mas a humanidade costuma subjugar a tiros a sinceridade sangrenta dos tigres e costuma apertar a consciência couceira dos asnos entre os sólidos varais do dever.

Os senhores escravocratas não estão certamente por isso… É para vos salvar que os abolicionistas escrevem, é para dizer-vos que não sejais tigres, que não sejais asnos.

A artilharia troante da dialética da rabulice, perturbando torpemente o caminhar da idéia abolicionista, debalde arqueja por desculpar-vos, debalde tenta atirar sobre o vosso abuso um véu esfarrapado de falsa legalidade. Tudo é nulo. Através o manto, irrompem a cada instante as pontas do vosso crime. O sangue passa pelas malhas do tecido e, coberto o crime, o crime fica patente. A voz do direito não pode ser abafada pelo arroto das consciências dispépticas de advogados que cunham moeda com o ouro virgem da estátua da justiça.

Legalize-se como se quiser, puxe-se e repuxe-se o elástico das honestidades carnavalescas dos juristas mercantes, apregoem pelas quatro ventanias, com todas as buzinas da venalidade barata, com todas as imprensas tísicas de província, anuncie-se por toda parte e por todos os modos que a escravidão é a mais pura de todas as instituições… A escravidão permanecerá crime, crime e crime…

Mas a liberdade humana não se agrilhoa. Existe sempre, apesar de tudo. Em realidade a escravidão não é bem um fato; é uma tentativa. Esta tentativa é um delito enorme; e um absurdo. Não se embrulha uma estrela num trapo. Ninguém escarra para o sol.

No sexto parágrafo desse texto, onde vibra declaradamente uma revolta que reencontraremos mais madura em Euclides, deparamo-nos com a expressão "consciência tranqüila", a mesma que Cruz e Sousa anos depois usará como título do seu mais violento texto sobre a escravidão, todo dominado de uma tragicidade tão visceral quanto a indignação do Pompéia abolicionista. E o mesmo ímpeto que o atirou à luta contra a escravidão o atirou na luta pela República. Rigorosamente jacobino, antilusitano, nacionalista, apóia plenamente o Marechal de Ferro - aquele que Euclides designará como a figura mais enigmática da nossa História - na duríssima repressão à Revolta da Armada e às revoltas no Sul do país, onde se destacou a figura sinistra de Moreira César, o líder da lamentável terceira expedição a Canudos. Nomeado diretor da Biblioteca Nacional por Floriano, como já lembramos, foi daqueles que receberam com desagrado a posse de Prudente de Morais - nosso primeiro presidente civil e mandatário supremo da nação durante o futuro conflito fratricida - em 1894. Em 1895, por uma dessas coincidências curiosas da História, Saldanha da Gama, o líder da Revolta, morre lutando no Sul, em 24 de junho, e, cinco dias depois, morre Floriano Peixoto, seu inimigo máximo. Em seu interessante diário, arquivado no IHGB, escreveu Prudente de Morais, após terminar o mês de junho desse ano: "Rememorando: São João levou Saldanha da Gama… São Pedro levou Floriano Peixoto…" Alguns meses depois, no enterro de Floriano - que enquanto isso repousava na Igreja da Santa Cruz dos Militares - no cemitério de São João Batista, Raul Pompéia, entre vários outros, fez um discurso candente, onde alguns desafetos suspeitaram de afrontas ao Presidente da República que se retirara da cerimônia um pouco antes, por motivos óbvios. Como funcionário da União, foi logo em seguida exonerado da direção da Biblioteca Nacional. Susceptível e desconfiado ao extremo, como aliás o era também Euclides, ainda que mais extrovertido que este, mergulha num período de forte depressão e neurastenia. Na imprensa de São Paulo, em seguida, Luís Murat, seu antigo colega e amigo - poeta medíocre que morreu louco ouvindo os cavalos de Floriano subindo pela sua escada - publica um artigo de extrema violência, "Um louco no cemitério", atacando Pompéia. Os amigos tentam evitar que ele tome conhecimento do mesmo, o que conseguem por dois meses. Passado esse tempo, tudo se revela, e a angústia de não ter revidado por todo esse prazo, mais a demora na publicação de um artigo, levam-no a julgar-se indelevelmente infamado como covarde. No dia de Natal de 1895, iludindo a vigilância da família, Raul Pompéia se mata, em sua casa na Rua São Clemente, com um tiro no coração, deixando um bilhete com as palavras: "À Notícia e ao Brasil declaro que sou um homem de honra." Perdia a nação assim, tragicamente, um dos seus maiores artistas da palavra, aos 32 anos, fato que só encontraria outro quase tão lamentável no suicídio, aos 25 anos, em 1921, de Hugo de Carvalho Ramos, o precocíssimo autor de Tropas e boiadas, legítimo antecessor do Guimarães Rosa de Sagarana.

Exemplo determinante da diferença de caráter - analítico em Euclides, passional em Pompéia - dos dois grandes escritores, podemos encontrá-lo nas descrições deixadas por ambos da figura de Floriano Peixoto. Em texto de 1904, publicado em Contrastes e confrontos, escreve Euclides sobre o Marechal de Ferro:

"No meio em que surgiu, o Marechal Floriano Peixoto sobressaía pelo contraste. Era um impassível, um desconfiado, um cético, entre entusiastas ardentes e efêmeros, no inconsistente de uma época volvida a todos os ideais, e na credulidade quase infantil com que consideramos os homens e as coisas. Este antagonismo deu-lhe o destaque de uma glória excepcionalíssima. Mais tarde o historiador não poderá explicá-la.

O herói, que foi um enigma para os seus contemporâneos pela circunstância claríssima de ser um excêntrico entre eles, será para a posteridade um problema insolúvel pela inópia completa de atos que justifiquem tão elevado renome. É um dos raros casos de grande homem que não subiu, pelo condensar no âmbito estreito da vida pessoal as energias dispersas de um povo. Na nossa translação acelerada para o novo regímen ele não foi uma resultante de forças, foi uma componente nove e inesperada que torceu por algum tempo os nossos destinos.

Assim considerado, é expressivo. Traduz de modo admirável, ao invés da sua robustez, a nossa fraqueza.

O seu valor absoluto e individual reflete na história a anomalia algébrica das quantidades negativas: cresceu, prodigiosamente, à medida que prodigiosamente diminuiu a energia nacional. Subiu, sem se elevar - porque se lhe operara em torno uma depressão profunda. Destacou-se à frente de um país, sem avançar - porque era o Brasil quem recuava, abandonando o traçado superior das suas tradições…"

De todo oposto à agudeza analítica de Euclides, com as sua antíteses impressionantes e metáforas retiradas do terreno das ciências, é o seguinte texto de Pompéia, no momento da morte do Consolidador da República, que faz dele quase um dos personagens da contingência nacional descrita pelo autor de Os sertões, com a sua "credulidade quase infantil" para a qual provavelmente o predispunha o seu misticismo revolucionário:

"O GRANDE IMORTAL

Ele teve dous únicos e reais inimigos: - o Estrangeiro e a Traição, porque foi justamente a personificação da Pátria e da Honra.

O antagonismo dos elementos morais contidos em tal antítese explica a violência do drama de sua vida, cujo desenlace aí vemos nessa apoteose incomparável a que se esquiva apenas o comércio de latrocínio e o jornalismo de suborno."

Contrariamente a esta diferença de visão, há semelhanças estilísticas admiráveis. Muito já se falou, sem nunca se chegar a maiores conclusões, sobre as possíveis origens do inigualável estilo de Euclides da Cunha na sua obra máxima. Certa vez o aproximamos de Oliveira Martins em alguns dos seus mais instigantes momentos, o que ainda nos parece procedente. O fato, no entanto, é que há em O Ateneu uma larga quantidade de orações ou parágrafos onde, pela intensidade expressiva, pela metaforização insólita, pela violência imagística, pelo ritmo enfim, detalhe nada desimportante, sentimos uma clara proximidade com Os sertões. Citaremos alguns, que creio aparecerão com um admirável ar de familiaridade, pela força satírica ou trágica, aos ouvidos atentamente euclidianos, ressalvando que toda esse levantamento de similitudes biográficas e literárias não pretende provar a existência concreta de nenhuma influência, pois sempre acreditamos na possibilidade de certas afinidades eletivas entre espíritos criadores que se materializam até em casos de completo desconhecimento. Mas ouçamos alguns poucos excertos recolhidos de O Ateneu:

"Chegou na frente o Tinoco, meninote nervoso, de São Fidélis, especialista invicto da carreira, corredor de prática e princípios, que a cada exame da Instrução Pública fugia duas vezes à chamada, entendendo que a fuga é a expressão verdadeira da força, e a bravura uma invenção oficial dos que não podem correr."

*
"Não posso atear toda a retórica de chamas que ali correu sobre Pentápolis. Fica uma amostra do enxofre."

*
"Torturava-o ainda em cima o ser ou não ser das expulsões. Expulsar… expulsar… falir talvez. O código, em letra gótica, na moldura preta, lá estava imperioso e formal como a Lei, prescrevendo a desligação também contra os chefes da revolta… Moralidade, disciplina, tudo ao mesmo tempo… Era demais! era demais!… Entrava-lhe a justiça pelos bolsos como um desastre. O melhor a fazer era chimpar um muro no vidro amaldiçoado, rasgar ao vento a letra de patacoadas, aquela porqueira gótica de justiça!"

*
"…o Conselho da Instrução no fundo, coisa desconhecida, mitológica, entrevista como as pinturas religiosas das abóbadas sombrias, onde as vozes da nave engrossam de ressonância, emprestando a força moral à justiça das comissões, com o prestígio da elevação e do inacessível; mais alto que tudo, o Ministro do Império, o Executivo, o Estado, a Ordem social, aparato enorme contra uma criança."

*
"Os débeis sacrificam-se; não prevalecem. Os ginásios são para os privilegiados da saúde. O reumatismo dve ser um péssimo acrobata."

*
"E parafusaria, acumuladas, as peças do seu orgulho, a pilha dos seus anelos, a estátua! Surgida aos poucos da sinceridade vagarosa das oblações, como dificilmente a glória, do escrutínio demorado dos tempos."

*
"Aristarco, na grande mesa, sofreu o segundo abalo de terror daquela solenidade. Fez um esforço, preparou-se. É preciso às vezes tanta bravura para arrostar o encômio face a face, como as agressões. A própria vaidade acovarda-se. Venâncio ia falar: coragem! A oscilação do turíbulo pode fazer enjôo. Ele receava uma coisa que talvez seja a enxaqueca dos deuses: tonturas do muito incenso. Gostava do elogio, imensamente. Mas o Venâncio era demais. E ali, diante daquele mundo! Não importa! Viva o heroísmo."

*
"A estátua não era mais uma aspiração: batiam-na ali. Ele sentia metalizar-se a carne à medida que o Venâncio falava. Compreendia inversamente o prazer de transmutação da matéria bruta que a alma artística penetra e anima: congelava-lhe os membros uma frialdade de ferros; à epiderme, nas mãos, na face, via, adivinhava reflexos desconhecidos de polimento. Consolidavam-se as dobras das roupas em modelagem resistente e fixa. Sentia-se estranhamente maciço por dentro, como se houvera bebido gesso. Parava-lhe o sangue nas artérias comprimidas. Perdia a sensação da roupa; empedernia-se, mineralizava-se todo. Não era um ser humano; era um corpo inorgânico, rochedo inerte, bloco metálico, escória de fundição, forma de bronze, vivendo a vida exterior das esculturas, sem consciência, sem individualidade, morto sobre a cadeira, oh, glória, mas feito estátua."

*
"Escureceu-me as recordações aqele olhar (…), como se perdem as linhas, as formas, os perfis, as tintas, de noite, no aniquilamento uniforme da sombra…"

*
"Tratadas a fogo, as vidraças estalavam. Distinguia-se na tempestade de rumores o barulho cristalino dos vidros na pedra das sacadas, como brindes perdidos da saturnal da devastação."

*
"A simples presença do coronel irritava as chamas, como uma impertinência de petróleo."

Etc. etc…

Disse certa vez Mário de Andrade, numa observação pouco feliz em um artigo célebre, que Pompéia não deixara de pôr em O Ateneu um assassinato e um incêndio. Julgaria ele ser uma concessão ao folhetinesco romântico ou imaturidade do autor? Não nos recordamos de outro romance de tal grandeza escrito aos 24 anos de idade, e nele Pompéia trabalhou exaustivamente, como se constata pelas provas para a segunda edição, ilustrada e definitiva, pela Francisco Alves, que só sairia em 1905. Poetas precoces há muitos, de Rimbaud ou Keats até o nosso Castro Alves, mas os ficcionistas são raríssimos, e não compararia Radiguet ou qualquer outro com o nosso autor. Qual então a estranheza pelos dois incidentes? Assassinatos ocorrem todos os dias, e infelizmente cada vez mais. Incêndios também, mas poderia acabar de outra maneira O Ateneu? Alguém imagina um final mais perfeito, mais necessário? Desde o aviso paterno "Vais encontrar o mundo…" tudo se encaminhava, por assim dizer, para essa tragédia cósmica. O colégio era o microcosmo do mundo. O mundo, uma metonímia de todo o Universo. Como surgimos misteriosamente do Nada, misteriosamente caminhamos para ele, ou para outra coisa. E a página final do romance, a que descreve - após a penúltima visão de Aristarco - os destroços carbonizados do Internato, descreve, de certa maneira, o fim de todo o Cosmos, em uma prosa que é mais um poema em prosa que outra coisa, e um dos mais belos momentos da nossa literatura:

"Lá estava; em roda amontoavam-se figuras torradas de geometria, aparelhos de cosmografia partidos, enormes cartas murais em tiras, queimadas, enxovalhadas, vísceras dispersas das lições de anatomia, gravuras quebradas da história santa em quadros, cronologias da história pátria, ilustrações zoológicas, preceitos morais pelo ladrilho, como ensinamentos perdidos, esferas terrestres contundidas, esferas celestes rachadas; borra, chamusco, por cima de tudo: despojos negros da vida, da história, da crença tradicional, da vegetação de outro tempo, lascas de continentes calcinados, planetas exorbitados de uma astronomia morta, sóis de ouro destronados e incinerados…

Ele, como um deus caipora, triste, sobre o desastre universal de sua obra."

Mas não nos esqueçamos que é também com um incêndio, incêndio histórico, necessário, obrigatório, que Euclides da Cunha se encaminha para o fim do seu livro genial. E, momentos antes de encerrar o gigantesco travelling descendente que vai da visão do planalto central do Brasil até o interior do crânio de Antônio Conselheiro, em busca das circunvoluções expressivas, onde se encontrariam as linhas essencias do crime e da loucura, é com um impressionante amontoamaneto de restos e de escombros do arraial, como do colégio, que nos deparamos:

"Seguia-se. A marcha gradativamente se tornava mais penosa através de entulhos sucessivos de um esterquilínio pavoroso. A soldadesca varejando as casas pusera fora, entupindo os becos em monturos, toda a ciscalhagem de trastes em pedaços, de envolta com a farragem de molambos inclassificáveis: pequenos baús de cedro; bancos e giraus grosseiros; redes em fiapos; berços de cipó e balaios da taquara; jacás sem fundo; roupas de algodão, de cor indefinível; vasilhames amassados de ferro; caqueiradas de pratos, e xícaras, e garrafas; oratórios de todos os feitios; bruacas de couro cru; alpercatas imprestáveis; candeeiros amolgados, de azeite; canos estrondados, de trabucos; lascas de ferrões ou fueiros; caxerenguengues rombos…

E nestes acervos, nada, o mais simples objeto que não delatasse uma existência miseranda e primitiva. Pululavam rosários de toda a espécie, dos mais simples, de contas policrômicas de vidro, aos mais caprichosos, feitos de ouricuris; e, igualmente, inúmeras rocas e fusos, usança avoenga tenazmente conservada, como tantas outras, pelas mulheres sertanejas. Sobre tudo aquilo, incontáveis, esparsos pelo solo, apisoados, rasgados - registros, cartas santas, benditos em quaderninhos costurados, doutrinas cristãs velhíssimas, imagens amarfanhadas de santos milagreiros, verônicas encardidas, crucifixos partidos; e figas, e cruzes, e bentinhos imundos…"

A similitude, até de andamento, entre a resolução dos dois trechos magistrais, nos parece indubitável.

Nascidos, em resumo, com menos de três anos de diferença no interior da Província do Rio de Janeiro, Pompéia e Euclides seguiram caminhos díspares mas ricos de coincidências. Dois republicanos históricos, ambos foram expulsos de instituições imperiais. Ambos exerceram funções públicas no novo regime. Ambos deixaram um obra vasta, mas dentro da qual um título se destaca soberanamente acima dos outros, títulos que de certo modo encimam duas obras, para usar a expressão de Euclides, "vingadoras". Ambos tiveram a atração telúrica da Amazônia, Pompéia na novela adolescente Uma tragédia no Amazonas, Euclides nas viagens e no irrealizado Um paraíso perdido. Ambos viveram uma experiência biográfica determinante para as suas obras, respectivamente a do Internato e a da guerra civil. Ambos foram correspondentes de O Estado de S. Paulo. Escritores geniais, ambos carregaram o estigma de um temperamento difícil, e ambos morreram tragicamente, Pompéia pelo suicídio e Euclides nas mãos do cadete Dilermando de Assis, em um rompante passional que ao suicídio já foi comparado. Mas há outros, talvez, que em sua companhia ainda possamos recordar. Num trecho que citamos, na hora do incêndio do Ateneu, quando chegam os bombeiros - "como uma impertinência de petróleo" - e as chamas se levantam, é impossível não sentir, neste decassílabo: "como uma impertinência de petróleo", não só o ritmo dos decassílabos de Augusto dos Anjos como também o insólito das suas imagens. Do mesmo modo, na descrição da figura de Aristarco perante as ruínas fumegantes do colégio, na famosa frase: "Ele pertencia ao monopólio da mágoa", como não nos lembrarmos novamente das imagens devastadoras, carregadas de uma energia que poderíamos dizer beethoveniana, de Euclides da Cunha? Já Manuel Bandeira, sempre admirável crítico, aproximara Augusto dos Anjos de Euclides. Podemos dizer que há algo dos dois em Pompéia. É toda uma família de violentos na expressão, ressalvando-se os momentos de extrema suavidade do autor de O Ateneu. Os três eram obcecados pelo sofrimento humano, dois morreram de morte violenta, todos permanecem inabaláveis na alma nacional.

Para nós, que talvez por um privilégio do destino pudemos estudar em um grande e velho colégio, e descobrir em seu porão essas relíquias de uma didática extinta descritas em O Ateneu: sistemas solares mecânicos - como o que em certo momento a mão de Aristarco põe em movimento como se fora a mão da Providência -, coleções de minerais e fósseis, gravuras sacras, animais empalhados, vísceras de cera, esqueletos, "esfolados" para estudo de anatomia, - todo esse caos que nos fez lembrar, com outra espécie de objetos, a devastação final da cidadela destruída - é quase com uma recordação pessoal que relemos essas maravilhosas linhas, esse acúmulo de todas as coisas que tanto nos lembra a seqüência final do Cidadão Kane de Orson Welles, essa "suma das sumas", como dizia o pobre "Dom Casmurro", que justifica sobejamente as lutas e o sofrimento dos nossos sempre amados Euclides da Cunha e Raul Pompéia.

*Conferência proferida na Academia Brasileira de Letras, em 26 dejunho de 2001, durante o ciclo Centenário da publicação de Os sertões.

Alexei Bueno é poeta, tradutor de poesia e organizador da obra de vários poetas para a editora Nova Aguilar. Atualmente é o diretor do Instituto Estadual do Patrimônio Artístico e Cultural do Rio de Janeiro.

 
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