MAPA DO SITE BUSCA
 
 
 

Ciclo de Conferências e Mesas Redondas em Comemoração ao Centenário de Morte de Euclides da Cunha

Programação completa


Ciclo Comemorativo do Centenário da Publicação de Os Sertões

Revisitando Euclides da Cunha (17/07/2001)
 

(Conferência proferida na Academia Brasileira de Letras, em 17 de julho de 2001, durante o ciclo Centenário da publicação de Os sertões.)

Celso Furtado

Creio que estou sendo apenas realista se afirmo que nossa Academia de Letras está de parabéns pelo brilho que alcançou este ciclo de conferências em torno da obra de Euclides da Cunha, comemorativas do centenário de publicação de Os sertões que se celebra no próximo ano.

Não cabe a mim, que não sou especialista na matéria, abrir novas pistas de reflexão sobre uma temática já tão trabalhada. Vou me limitar a relembrar alguns pontos a fim de que possamos intercambiar idéias sobre a atualidade de Euclides como pensador preocupado em entender o processo de formação da cultura de nosso país.

Mas, antes de entrar diretamente na matéria que nos ocupa, gostaria de dar um testemunho pessoal: sou originário da região do Brasil em que a chamada Guerra de Canudos repercutiu mais profundamente. Durante a minha infância, no alto sertão da Paraíba, presenciei grandes romarias de sertanejos que se deslocavam para Juazeiro do Padre Cícero. Este, um rebelde em conflito com as autoridades civis e religiosas, desencadeou entre a população sertaneja uma onda de fanatismo similar à que suscitara Antonio Conselheiro. Meu imaginário infantil estava povoado de histórias de milagres. Um primo meu próximo praticou um crime de morte e, para evitar ser preso, refugiou-se no cangaço. Ele nos visitava ocasionalmente, e me contava histórias fantásticas de milagres praticados pelo Padre Cícero. Outro parente, meu tio-avô, que como recruta participara da Guerra de Canudos, contava-me as prodigiosas peripécias que vivera durante essa campanha militar. Nesse mundo, o único certo era a insegurança, e a ele se contrapunham as idéias de progresso e civilização que me seriam incutidas na escola primária.

Faço essas observações para que se compreenda a resistência que foi corrente em minha geração a aceitar a visão positiva implícita na mensagem de Euclides a respeito da formação do homem brasileiro. Este é o tema que vou abordar em seguida.

Permitam-me iniciar esta breve exposição com uma citação do autor de Os sertões: “Canudos não se rendeu. Teve que ser destruída.” E antecipo que concluirei com uma interrogação que sintetiza o grito de angústia contido na mensagem dirigida por Euclides à posteridade: como evitar que nossa miopia ideológica nos conduza à repetição de crimes como os que denunciou esse pensador de rara lucidez e coragem?

Euclides é um dos autores mais lidos e mais citados entre nós. Ora, a grave denúncia que fez teve pouca ressonância e foi de escassa influência em nosso acontecer histórico. Cabe, portanto, indagar: como explicar essa permanência, que faz de sua obra uma referência obrigatória, hoje comprovada por estudos de autoridades na matéria?

A verdade é que por seu estilo Euclides há muito se afigura anacrônico, e seu cientificismo positivista foi totalmente superado na área dos estudos sociais. Qual seria, portanto, a razão do enorme interesse por sua obra, se tanto do ponto de vista da forma como do conteúdo ela nos parece datada e superada?

A chave para entender o paradoxo possivelmente reside em que, em face do drama – do “crime”, em suas palavras – que constituiu o massacre de Canudos, Euclides, abandonando a opinião universalmente adotada na época, percebeu com lucidez a gravidade das contradições inerentes à nossa formação histórica, as quais se manifestam nas profundas desigualdades sociais que tanto demoramos a reconhecer.

Somente assim logramos explicar que esse pensador haja exercido um papel fundador na cultura brasileira, comparável ao de Cervantes na cultura espanhola ou ao de Goethe na cultura alemã. Trata-se de uma influência difícil de circunscrever, que assume formas por vezes contraditórias.

O deslumbramento suscitado pela leitura de Os sertões deveu-se, inicialmente, ao impacto produzido por seu suposto embasamento científico. A formação cultural de Euclides era a que, na época, se absorvia nas escolas de engenharia. Era o tempo em que se imaginava que o conhecimento científico tendia inexoravelmente à unificação epistemológica, sendo o seu núcleo duro as matemáticas. É interessante observar a leitura que fez Euclides da obra do sociólogo polonês Ludwig Gumplowicz, A luta das raças, escrita em alemão e difundida graças a uma tradução francesa a que ele teve acesso. Na opinião de Euclides, essa obra, à qual ele atribui grande importância, foge ao historicismo convencional então dominante no pensamento germânico. Ele repudiava a visão historicista, em benefício de um suposto conteúdo naturalista. Diga-se de passagem que as interpretações da realidade social prevalecentes na época também constituíram uma justificação para as teses racistas que pretenderam legitimar a expansão imperialista européia.

Ocorre que, já no primeiro quartel do século XX, a ciência antropológica em que se fundou o pensamento de Euclides conheceu profunda transformação. Os avanços dessa ciência nos Estados Unidos e também no Brasil deixaram a descoberto o conteúdo ideológico subjacente nas doutrinas racistas então preponderantes. Euclides imaginava ter contraído uma importante dívida intelectual com Ludwig Gumplowicz, mas a importância de sua obra está exatamente em que ele, fundando-se em puras intuições, conseguiu superar a doutrina racista então aceita universalmente. A verdade é que os antropólogos brasileiros seus contemporâneos, mesmo os mais lúcidos como Nina Rodrigues, não alcançaram dar esse passo.

Uma vez reconhecidas as limitações da obra de Euclides no plano da antropologia, permanecia de pé o monumento literário. Com efeito, nenhuma obra literária mereceu entre nós mais atenção dos especialistas do que Os Sertões. E que cabe reter do amplo trabalho de pesquisa realizado em torno dela? Um competente especialista, o professor Alfredo Bosi, assinala a predominância de uns poucos processos retóricos como a intensificação e a antinomia. A mediação literária faz-se para figurar a ideologia da implacabilidade dos fatos, que permearia todo o acontecer histórico.

Sem lugar a dúvida, o gongorismo verbal predominava na época, em que pontificavam mestres como Rui Barbosa e Coelho Neto. Ainda assim, a semântica da percepção exagerada e o proselitismo implícito já haviam sido objeto de uma crítica sutil de Machado de Assis, cuja influência literária prevaleceu em nossa cultura no século XX.

Se adotamos uma visão abrangente do processo histórico de nosso país, deparamo-nos com uma realidade marcadamente contraditória. A criação do Estado nacional fora precoce mas permanecera incompleta, sendo ineficaz sua atuação em amplas áreas do vasto território. A obra de estadista de Rio Branco, contemporâneo de Euclides, demonstrou a importância da consolidação da instituição estatal para a fixação definitiva das fronteiras nacionais. O engenheiro Euclides da Cunha foi um colaborador entusiasta do Barão, particularmente no trabalho de delimitação do futuro território do Acre.

O centralismo do poder imperial tivera como conseqüência o confinamento da atividade política, que era relegada quase sempre a confrontações do mandonismo local. A tomada de consciência de pertencer a uma nação penetrava lentamente, dado que o exercício da cidadania fora limitado pela escravidão e por suas seqüelas, que perduravam, como o analfabetismo. O decantado progresso, apanágio do século XIX, era totalmente dependente da importação de artigos de consumo e de modismos que se incorporavam aos hábitos de uma elite.

Liberando-se de uma bagagem de conhecimentos supostamente científicos, Euclides intuiu a existência de um povo em formação autenticamente brasileiro, o qual ele imaginou ser fruto do cruzamento trissecular de raças diversas. Esse caldeamento ter-se-ia processado na região interiorana, conseqüência do isolamento a que foram relegadas suas populações.

Assim, graças a suas intuições geniais, Euclides liberou-se da ciência inquinada de falsas doutrinas, predominante em sua época, para alcançar uma percepção global do processo de gestação de nossa cultura. O apelo desabrido à imaginação corrigia nele o suposto rigorismo científico de que se orgulhava. Referindo-se ao sertanejo, cujo vigor comprovara na epopéia de Canudos, afirma peremptório: “a sua evolução psíquica, por mais demorada que esteja destinada a ser, tem, agora, a garantia de um tipo fisicamente constituído e forte. Aquela raça cruzada surge autônoma e, de alguma forma, original”. É claro que não se trata de evolução psíquica, e sim de simples conformação cultural.

Estava dado o passo definitivo para captar a originalidade do processo de formação de nossa cultura. Euclides chega a encarar como algo positivo o abandono a que o mundo litorâneo, que para ele seria inautêntico, condena o mundo sertanejo, matriz de nossa cultura. Sua intuição aponta na direção certa quando afirma: “A nossa evolução biológica reclama a garantia de nossa evolução social.” É no plano dos valores sociais que se dá o embate decisivo.

Portanto, se cem anos depois a obra de Euclides permanece tão importante, é por sua profunda atualidade. Ela nos ajuda a reconhecer que o Brasil é um país em construção. Assim, os problemas que hoje nos angustiam – a fome, o analfabetismo, o latifundismo – são substrato da realidade por ele descrita. Em nosso país há uma imensa população amorfa, de raízes culturais múltiplas, sendo caldeada e ascendendo progressivamente à cidadania. O mitológico sertanejo euclidiano deve ser visto, pois, como a prefiguração do cidadão consciente que hoje se afirma.

* Conferência proferida na Academia Brasileira de Letras, nodia 17 de julho de 2001, durante o ciclo Centenário da publicação de “Os sertões”.

 
Home Topo Voltar
 
Copyright 2007 Academia Brasileira de Letras. Todos os direitos reservados.