MAPA DO SITE BUSCA
 
 
 

Os artigos publicados no O Estado de S. Paulo
Depois de publicar no Estado de S. Paulo, em 14 de março de 1897 o artigo intitulado "A Nossa Vendéia", Euclides da Cunha foi designado como correspondente desse periódico no sertão baiano.

Relação dos artigos enviados pelo escritor e publicados no Estado de S. Paulo, no período de julho a outubro de 1897:

10 de Setembro de 1897 (Publicado em 11 de outubro de 1897)
 

CANUDOS - ...E vingando a última encosta divisamos subitamente, adiante, o arraial imenso de Canudos.

Refreei o cavalo e olhei em torno.

É extraordinário que os que aqui têm estado e escrito ou prestado informações sobre esta campanha, nada tenham dito ainda acerca de um terreno cuja disposição topográfica e constituição geológica são simplesmente surpreendedoras.

As inúmeras colinas que se desdobram em torno da cidadela sertaneja, todas com a mesma altitude quase e dando, ao longe, a ilusão de uma campina unida e vasta, alevantam-se dentro de uma elipse magestosa de montanhas. Olhando para a direita, avultam as cumiadas, da Canabrava, Poço de Cima e Corobó ligando-se à esquerda com as do Calumbi, Cambaio e Caipan infletindo a leste e a oeste uma curva amplíssima e fechada, com um eixo maior de doze léguas e um menor, de nove, traçando uma elipse perfeita.

Dentro dela estende-se a região caótica, irregularmente ondulada, em cujo centro, aproximadamente, se ergue Canudos.

O arraial não se distingue prontamente, ao olhar, como as demais povoações; falta-lhe a alvura das paredes caiudas e telhados encaliçados.

Tem, a côr da própria terra em que se erige, confundindo-se com ela na mesma tinta de um vermelho carregado e pardo, de ferrugem velha, e, se não existissem as duas grandes igrejas à margem do Vasa-Barris, não seria percebida a três quilômetros de distância.

Alevanta-se sobre oito ou nove colinas, suavemente arredondadas umas, terminando outras em rampas fortíssimas.

Visto de alguma distância, porém, parece uma cidade plana, mais abrigada, à direita, pelos acidentes um pouco mais fortes do solo, que, da Favela à Fazenda Velha, se ligam à última trincheira fechando a estrada do Cambaio, circumurando-o, em parte, a cavaleiro do vale profundo do Vasa-Baris que segue a mesma direção.

Do alto da trincheira "Sete do Setembro", erguida num contraforte avançado do morro da Favela, quem o observa tem a impressão, inesperada de achar-se ante uma cidade extensa, dividida em cinco bairros distintos e grandes, revestindo inteiramente o dorso das colinas.

É um quadro surpreendente, o deste acervo incoerente de casas - todas com a mesma feição e a mesma côr, compactas e unidas no centro de cada um dos bairros distintos, esparsas e militarmente dispostas em xadrez nos intervalos entre eles.

Não há própriamente ruas, que tal nome não se pode dar às vielas tortuosas, cruzando-se num labirinto inextrincável, - e as duas únicas praças que existem excetuada a das igrejas são o avesso das que conhecemos: - dão para elas os fundos de todas as casas; são um quintal em comum.

À esquerda da linha definida pelo observador e a parede anterior da igreja nova, acha-se a parte rica - casas de telhas avermelhadas e de aparência mais correcta, um tanto maiores que as demais e mais ou menos alinhadas num arremedo de arruamento. Estendendo-se em torno destas, apresentam-se, numerosíssimas e como que feitas por um único modelo, as casinhas que constituem a maior parte do clan de Antonio Conselheiro.

Feitas de pau a pique e divididas em três compartimentos, no máximo, são com que uma paródia grosseira da antiga casa romana - um átrio que é a um tempo a cozinha, sala de jantar e de recepção, um vestíbulo estreito em algumas, e uma alcova. Cobertas de uma camada de cerca de quinze centimetros de barro, lembram neste ponto as casas dos gaulezes de Cesar. Os nossos rudes patrícios têm, porém, um material mais apropriado nas placas largas da rocha predominante da região, que ainda quando decomposta conserva a estratificação primitiva. Assentam-nas sobre as folhas resistentes de icó.

É uma cobertura eterna - e Canudos, como um vastíssimo Kraal africano, pode durar mil anos, se o bombardeio e os incêndios não o destruirem breve.

Tenho-a percorrido toda, de longe, cançado de acomodar a vista às lentes dos binóculos. Dois meses de bombardeio permanente não lhe destruíram a metade sequer das casas; somente uma análise mais demorada patenteia as ruínas que surgem num e noutro ponto, a própria construção rudimentar impedindo a irradiação eficaz das explosões das granadas. A bala atravessa violentamente, sem encontrar resistência, perfurando paredes estreitíssimas de argila, dez ou vinte casas e não as abala. Deixa-as intactas quase, abertas apenas mais algumas seteiras para o espingardeamento traiçoeiro feito pelos jagunços.

As próprias igrejas, longos dias rudemente tratadas pela artilheria, conservam ainda as paredes mestras quasi destruídas, como dois acervos monstruosos de pedras enormes. Os jagunços ainda se entrincheiram nelas, às vêzes, travando tiroteios cerrados, à queima-roupa, com as linhas audaciosas dos tenentes-coronéis Tupi e Dantas Barreto.

E olha-se para a aldeia enorme e não se lobriga um único habitante. Lembra uma cidade bíblica fulminada pela maldição tremenda dos profetas. E quando os tiros dela partem, de todos os pontos, irradiando para todos os pontos da linha amplíssima do cerco, a fantasia apenas divisa ali dentro uma legião invisível e intangível de demônios...

* * * * *

Se, considerando esta aldeia sinistra, se avaliam todas as dificuldades de um combate travado em seu seio, observando os arredores vê-se que deve ter sido dificilima a investida feita contra ela pelas nossas tropas. Qualquer seção transversal neste terreno caprichoso, determina, desenhada, uma sinuosa. A marcha realisa-se ou seguindo pelos meandros dos pequenos vales ou em sucessivas e inevitáveis subidas e descidas, numerosas e fatigantes, agrupando-se as colinas pouco elevadas numa ordem e feição tais que lembram grandes calotes esféricas dispostas num plano extenso, tangenciando-se no fundo das gargantas intermediárias.

Nada mais perigoso e difícil do que a marcha de um exército em tais lugares; - é como se atravessasse o recinto complicado de uma fortaleza. Cada batalhão, cada brigada, o ex´rrcito inteiro é fatalmente batido por todos os lados pelo inimigo invisível sempre - acobertado ora pelos valos que sulcam as encostas, cujas bordas mascaradas por enredados renques de macambiras não deixam perceber o atirador ousado, ora pelas trincheiras cavadas no alto, circulares ou elípticas, dentro das quais não caem as balas nem mesmo no ramo descendente das trajetórias.

Nos combates cruentos de 18 de julho ostentaram-se, de modo notável, estas condições táticas formidáveis.

Percorri o campo da batalha com o meu colega Gustavo Guabirú e ele, que foi um dos protogonistas da luta, mostrou-me pontos em que meia dúzia de homens rarearam as fileiras de muitas brigadas.

Violentamente batida pelos flancos e pela frente as forças, ao vingarem as eminência sucessivas do solo, nelas não encontravam do inimigo outro indício além de uma trincheira tosca e cheia de cartuchos detonados. Em compensação, mais adiante continuava a fuzilaria inextinguível e tremenda, fulminando-as novamente por todos os lados - e o inimigo ressurgia nas três ou quatro colinas mais próximas. E não haviu abrigarem-se no fundo dos vales: os tiros mergulhantes desciam mais certeiros ainda.

Fazia-se um esforço indefinível, ordenavam-se as fileiras abaladas os batalhões ascendiam, a passo de carga, para as novas fortificações e encontravam outra vez as trincheiras vazias e mais adiante, alevantado nos acidentes mais próximos, o mesmo inimigo, intangível e rápido como um demônio, fulminando-os sempre e escapando sempre para novas posições, inteiramente idênticas às anteriores!

Uma coisa fantástica. E nem um plaino sofrivelmente extenso, um ponto abrigado, insignificante embora, para a organisação de uma resistência ou ataque mais bem orientado....

Numa das colinas, no alto, sob a ramada sem folhas de um umbuzeiro o meu colega mostrou-me uma cavidade circular de pouco mais de meio metro de profundidade.

Ali esteve no dia da peleja um único homem; e esse homem torturou batalhões inteiros!

Ninguém o podia distinguir. Os tiros rápidos da Manulicher que sopesava, dispensando apontaria para um alvo enorme, caíam, repetidos, numerosíssimos, em cheio, dentro das fileiras. Era uma fusilaria tenaz, impetuosa, mortífera, formidável, jogando em terra pelotões inteiros e feita por um único homem. Os soldados, estonteados, atiravam ao acaso, na direção provável dos tiros do maldito: uma saraivada de balas passava rugindo pela galhada do umbuzeiro; o atirador sinistro e nunca, percebido abaixava apenas a cabeça e passada a onda de balas, continuava de cocoras no fundo da trincheira, a tarefa espantosa.

Os melhores binóculos não o distinguiam: agachado na cova, olhando segundo uma tangente à borda do fosso terrível e atirando, atirando, atirando sempre, despiedado, terrível, demoníaco, num duelo de morte contra mil homens!

Ainda lá estão as cápsulas detonadas. Contei 361.

361 tiros deu aquele ente fantástico e talvez perdesse muito poucas balas.

E não morreu. Por acaso uma fração das forças tomou em acelerado a direção da trincheira. Ele surgiu numa última explosão terrivel e desapareceu prestes caindo pelas encosta abrupta...

Ora, pelo alto de todas as tombadas que atravessei apareciam as mesmas trincheiras cavadas com uma disposição inteligente umas relativamente às outras cruzando os fogos da maneira mais eficaz e dentro de todas elas os cartuchos detonados patenteavam o mesmo açodamento na peleja.

Não será por isto difícil demonstrar - e fal-o-ei muito breve - que a batalha de 18 de julho é um dos feitos de armas mais notáveis da nossa história militar.

 
Home Topo Voltar
 
Copyright 2007 Academia Brasileira de Letras. Todos os direitos reservados.