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Depoimento do Acadêmico Alberto Venancio Filho
 

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Depoimento do Acadêmico Alberto Venancio Filho
Gravado em 03/06/2003

(Transcrição)

Euclides da Cunha foi denominado, com propriedade, o mais brasileiro dos escritores brasileiros. Realmente, o exame sua vida e obra confirma essa assertiva. Filho de um modesto guarda-livros, não pertencia assim à alta burguesia ou à classe média, em que realmente se formavam os filhos de família naquela época.

Perdeu a sua mãe aos três anos e teve uma infância muito atribulada, vivendo em casa de tios, em companhia de sua irmã Adélia. Estudou em São Fidélis, estudou na Bahia, estudou no Rio, e afinal foi cursar o Externato Aquino - uma das instituições mais importantes do ensino secundário do Brasil, do Rio de Janeiro - dirigido pelo eminente professor João Pedro de Aquino, que Escragnolle Dória, professor do Colégio Pedro II, chamou de “Santo da pedagogia brasileira”. Aí ele teve uma base sólida de estudos científicos e se encontrou pela primeira vez com a figura de Benjamin Constant, o líder republicano e positivista com quem mais tarde se verá após a Proclamação da República.

Naquela época, os filhos de família acorriam a São Paulo e a Olinda para os cursos de Direito, geralmente acompanhados de seus escravos, enquanto que a classe média, não podendo usufruir dessas vantagens, se encaminhava para a Escola Militar. Por isso a Escola Militar foi, na segunda metade do século XIX, o viveiro dos jovens da classe média, entre os quais, naturalmente, se encontrava Euclides da Cunha.

Ele freqüentou inicialmente o curso anexo da Escola Politécnica, mas como era escola paga, e não tendo recursos para continuar, ingressou afinal na Escola Militar. E ingressou num período de grande efervescência política. Com o início do Movimento Republicano, a Escola Militar era realmente o centro onde a mocidade militar ansiava pela Proclamação da República, tendo como seus principais líderes justamente Benjamin Constant, o professor do Externato Aquino.

Da sua turma na Escola Militar, participaram também figuras muito eminentes, que foram se destacar na vida pública, como o general Tasso Fragoso - militar de grande destaque, historiador, e participante da junta militar em 1930 - e Cândido Mariano da Silva Rondon, que foi o grande sertanista e o grande defensor dos índios no Brasil. Todos esses colegas, como outros não aqui mencionados, sempre destacaram na figura de Euclides da Cunha uma pessoa muito estudiosa, reservada, recolhida aos seus estudos, e que, nessa época, também se dedicou a certas poesias, que estão reunidas no caderno chamado Ondas.

O fato importante é a proximidade da Proclamação da República - o fervor com que a mocidade militar ansiava pela queda da monarquia; e o episódio, que é o primeiro grande episódio da vida de Euclides da Cunha.

Chegava da Europa o líder republicano Lopes Trovão, e os alunos da Escola Militar se aprestavam para recepcioná-lo, como uma manifestação do novo regime. O general Clarindo Queirós, diretor da Escola Militar, marcou uma visita do ministro da Guerra, Tomás Coelho, que compareceu acompanhado de um pai de aluno, o político Silveira Martins. Os alunos se rebelaram contra essa manifestação e programaram fazer um movimento de protesto, diante da chegada do ministro da Guerra. O que aconteceu é que somente Euclides da Cunha foi autor desse protesto, e quando a 2ª Divisão vinha em continência ao ministro da Guerra, ele sai de forma, tenta quebrar o sabre e faz um protesto - segundo alguns, dizendo: “Infame, a mocidade republicana, cortejando o ministro da monarquia”. Esse episódio tem várias interpretações. Inclusive, quando da posse de Afrânio Peixoto na Academia Brasileira, este relatou-o de uma certa maneira, e foi contestada pelo seu futuro sogro, Alberto de Faria, que era genro do ministro da Guerra. Eu me fio no depoimento de Alberto Rangel, que participou do episódio, embora talvez a emoção tivesse prejudicado a exata configuração do episódio. O fato é que Euclides da Cunha é preso, submetido ao Conselho de Guerra, e também aí é uma fase confusa, em que ele se recolhe ao hospital e recebe o apoio de um grande médico, que foi Francisco de Castro, posteriormente membro desta Casa, embora tenha morrido antes de tomar posse.

Fala-se também que o pai de Euclides teria pedido clemência ao imperador. O fato é que ele é expulso da Escola Militar e vai para São Paulo participar do então Movimento Republicano, através dos artigos que escreve no jornal A Província São Paulo, que mais tarde se tornou O Estado de S. Paulo. Esse episódio, que é do final de 88, então, precedeu de pouco a Proclamação da República, e por uma coincidência, que os autores não determinam, Euclides da Cunha estava aqui quando se proclamou a República. Parece que os colegas o convocam, ele comparece diante de Deodoro da Fonseca, ia comparecer à paisana, mas foi à Escola Militar apanhar o uniforme, e é desde logo reintegrado no Exército.

No período de 1889 a 1893, cursa a Escola Superior de Guerra, é feito adjunto de ensino da Escola Militar, recebe o título de bacharel em Ciências Físicas, do que muito se orgulhava, e também escrevendo em alguns jornais do Rio de Janeiro. Por ocasião da Revolta da Armada em 1893, o senador João Cordeiro faz uns artigos pelo jornal, dizendo que deviam ser fuzilados os autores da manifestação contra o Governo. Euclides da Cunha, então oficial do Exército, escreve os artigos contrários, é então afastado, vai reconstruir um quartel na cidade de Campanha, em Minas Gerais, mas já se preparando para sair da vida militar. Tal acontece alguns anos depois, e ele então volta para São Paulo, para colaborar no jornal O Estado de S. Paulo.

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Este episódio precede de pouco o início do Movimento de Canudos, quando escreve dois artigos com o título A nossa Vendéia, comparando o Movimento de Canudos com o movimento monárquico contra a República, da mesma maneira que foi o movimento da Vendéia na França, logo depois da Revolução Francesa.

A Guerra de Canudos se prolonga por algum tempo, e Júlio Mesquita, que era o diretor de O Estado de S. Paulo , designa Euclides da Cunha como correspondente de guerra. É preciso assinalar que, para simples correspondente de guerra, certamente O Estado de S. Paulo não mandaria Euclides da Cunha. Mas há sempre a idéia que desse Movimento iria então surgir um grande livro, como realmente surgiu. Euclides da Cunha é feito adido à comitiva do ministro da Guerra, que é o marechal Machado Bittencourt. Passa um mês em Salvador, procura visitar os feridos, se documenta nos arquivos sobre o problema da Guerra, sempre com aquele intenso espírito investigador e de seriedade científica. E afinal, acompanha o marechal Bittencourt até Monte Santo, assiste alguns episódios finais da Guerra de Canudos, embora não estivesse presente quando realmente da rendição.

Volta a São Paulo e, então, passa a engenheiro militar - engenheiro da Superintendência de Obras do Estado de São Paulo. Dedica-se, além disso, ao jornalismo e faz vários trabalhos nesta época.

Há um depoimento muito interessante: o superintendente de Obras do Estado de São Paulo era o engenheiro Wallace Simonsen, avô do futuro engenheiro Roberto Simonsen, membro desta Casa, grande escritor, grande historiador, e que deu um depoimento, dizendo que, aos nove anos,  morava com o avô e acompanhava as visitas que faziam os colaboradores da Superintendência e outras pessoas da vida de São Paulo, e que a figura do Euclides realmente o marcou como uma figura diferente, excepcional, completamente sem símile  com os demais.

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Aí ocorre a peripécia da história. Euclides da Cunha era superintendente de obras de determinada região do interior de São Paulo, que incluía a cidade de São José do Rio Pardo, embora não fosse responsável pela construção de uma ponte, que estava a cargo de um engenheiro francês, Montmorency. A ponte é construída, e um mês depois de estar pronta, a ponte cai. É um caso importante, porque esta ponte permitiria o escoamento do café produzido em São José do Rio Pardo, que era um grande centro produtor de café.

Embora sem responsabilidade direta pela obra, Euclides, com o seu orgulho, com o seu destemor, coloca-se à disposição para fazer a reconstrução da obra. É o momento máximo da sua vida, quando ele passa dois anos em São José do Rio Pardo, e tem as condições ideais para escrever o livro máximo da literatura brasileira, que são Os sertões. Era intendente municipal, em São José do Rio Pardo, Francisco Escobar, mineiro mas radicado em São Paulo, um homem que escreveu muito pouco, mas que era considerado por todos de grande cultura. Rui Barbosa escreveu uma dedicatória a ele, chamando-o de “doutíssimo e cultíssimo”, e é Francisco Escobar que dá a Euclides as condições de trabalho - ao lado de sua tarefa de reconstrução da ponte - para escrever Os sertões.

A reconstrução da ponte, do ponto de vista da engenharia, foi uma obra da mais alta envergadura, pois, retirado parafuso por parafuso, foram depois  recolocados, e a obra é tão extraordinária que hoje, passado mais de um século, está funcionando perfeitamente.

O que foi, então, o papel de Francisco Escobar, que é sempre acentuado quando se fala na elaboração de Os sertões? Antes de São José do Rio Pardo ou depois de São José do Rio Pardo, Euclides da Cunha nunca teve as condições de vida para se dedicar a um trabalho de grande envergadura. Ele tinha uma vida familiar difícil e as tarefas de engenheiro ou jornalista não lhe permitiram vagar para uma obra de fôlego. Francisco Escobar criou ambiente muito favorável a isso, fornecendo livros para Euclides; inclusive, num determinado momento, Euclides queria uma tradução da Flora de Martius do latim, e é Francisco Escobar que faz a tradução e reúne um grupo de intelectuais da época - entre estes, Waldomiro Silveira, que foi depois um grande escritor e jornalista - para leitura dos capítulos de Os sertões. E dessas tertúlias há muitos episódios interessantes, dos quais eu vou relatar apenas um.

Um desses escritores era também um boiadeiro, fazendeiro, e um dia, soube que Euclides da Cunha estava escrevendo um capítulo sobre O estouro da boiada, que é um capítulo célebre citado por todo mundo, inclusive, muitos fazendo a comparação com o mesmo texto de Rui Barbosa. Ele tinha escrito o seu trabalho sobre o estouro da boiada, e numa dessas tertúlias, levou o trabalho para ler, mas pediu que Euclides lesse em primeiro lugar. E afinal, ele ficou tão encabulado com a discrepância entre um trabalho e outro, que rasgou seu texto para não passar por um vexame.

O carinho de Escobar foi extraordinário e quando acabou a redação de Os sertões, Escobar contratou um sargento de polícia de boa caligrafia para passar a limpo o livro.

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Euclides, terminada essa tarefa em São José do Rio Pardo, continua como engenheiro da Superintendência de Obras e tem o desejo de editar Os sertões. Um amigo de São Paulo, engenheiro como ele e também membro desta Casa, Garcia Redondo, o apresenta a Lúcio de Mendonça, fundador desta Casa, que o encaminha à Casa Laemmert, que era uma grande editora da época. Ela tinha um insucesso com livro semelhante, As marinhas de outrora, do Visconde de Ouro Preto, e só se dispôs a fazer a edição com Euclides financiando a obra, o que realmente ele fez. E num determinado momento, ele veio rever as provas e ficou horrorizado com os erros que havia no texto, e segundo a crônica, ele, de canivete, corrigiu todos os volumes da obra.

Euclides era de um temperamento instável, muito nervoso, muito tímido, tinha um grande receio sobre o sucesso da obra. Então, quando soube que a obra ia ser publicada, como engenheiro, passou uma semana nas tarefas de engenheiro em cidades do interior. Ele volta, um dia chega na estação da estrada de ferro de Lorena e encontra uma pessoa com um livro na mão, ele pergunta: - É Os sertões? - Era Os sertões. E chegando em casa, encontra duas cartas do editor. Ele abre a segunda, que dizia que o livro tinha sido sucesso e que ia preparar a reedição, enquanto a primeira, que era a anterior, dizia que o livro tinha sido um fracasso, nem como papel velho os comerciantes queriam vender. E, realmente, o sucesso foi muito grande.

Outro aspecto meio incerto é sobre a data da saída de Os sertões. Há depoimentos em que Euclides da Cunha estava muito preocupado que o livro saísse no dia 1º de dezembro, que coincidia com a chegada do Barão do Rio Branco, depois do período muito grande que este passou no exterior, e estava sendo recepcionado com todas as honras de Estado. Então, ele mantém essa recepção.

Muitos dizem que o livro foi publicado a 2 de dezembro. Entretanto, no dia 3 de dezembro, quer dizer, no dia seguinte, José Veríssimo fazia uma crônica, uma recensão sobre o livro, das mais elogiosas. Então, eu me filio ao que afirma Olímpio Souza Andrade: que Os sertões foram editados no final de novembro, e talvez a data tenha sido antecipada justamente para não coincidir com a chegada do Barão do Rio Branco. O fato é que é um sucesso muito grande. Os três grandes críticos da época - Silvio Romero, Araripe Júnior e José Veríssimo - tecem loas ao livro como uma obra excepcional. Alguns críticos militares também elogiam a obra, às vezes com alguma restrição, e logo em seguida, sai a segunda edição. O livro hoje deve estar na 32ª edição. Como caiu em domínio público, há várias edições que não são do editor original, que era a Livraria Francisco Alves, que adquiriu o acervo da Editora Laemmert.

O que é que o livro Os sertões tem de fundamental? Por que essa obra até hoje permanece como um dos grandes livros, e é sempre considerada quando se fala nos dez melhores livros da literatura brasileira? Os sertões se coloca quase sempre em primeiro lugar. Primeiro, é obra de um homem de formação científica. A literatura brasileira, até então, era toda marcada pelo beletrismo, pela formação dos autores que se filiavam à literatura francesa, e Euclides traz esse fato novo, que é um homem de formação científica. Se ele não tivesse tido essa formação científica, não seria capaz de escrever Os sertões. Outro aspecto é que foi esquecida, pela primeira vez, a civilização litorânea, aquilo que frei Vicente do Salvador dizia: que nós vivíamos como uns caranguejos, arranhando as areias. É o homem que revela um outro Brasil desconhecido, que era o Brasil do sertão, o Brasil das regiões mais pobres e o Brasil realmente da miséria.

Eu acharia importante, antes de continuarmos analisando Os sertões, falar nas críticas que, de certa maneira, têm sido feitas ultimamente a respeito do livro, a meu ver, sem a menor procedência. A primeira crítica que se faz começou com João Ribeiro e foi acompanhada pelos membros da Academia, Afrânio Coutinho e José Guilherme Merquior: Os sertões é uma obra de ficção. Admira-me que pessoas de certa cultura possam ver em Os sertões uma obra de ficção, porque o livro não tem nada de ficção, é um livro de História, é um livro de ensaio, é um livro de interpretação do Brasil.

Franklin de Oliveira, no livro A dança das letras, realmente faz uma análise completa, mostrando que o livro não é um romance, não tem nada de ficção, e dá a denominação que, a meu ver, parece a denominação mais adequada, que é a denominação “ensaio de caráter histórico”, comparando-o de certa forma, e acho que com procedência, com o Casa Grande & Senzala, do Gilberto Freyre.

Outro aspecto, que hoje já está menos discutido, é o problema de que seria uma obra de colaboração. Então, falava-se que Teodoro Sampaio fez o livro junto com Euclides da Cunha. Esse também é um episódio que não tem a menor procedência. Euclides da Cunha, com o seu rigor científico, com o seu zelo, com a sua dignidade, realmente procurou acercar-se de todos os elementos que havia. O livro está baseado nos viajantes estrangeiros e Euclides se apoiou muito nos trabalhos de Teodoro Sampaio sobre a geologia do sertão brasileiro e sobre vários outros aspectos. E Teodoro Sampaio, que fez um perfil muito interessante de Euclides da Cunha, nunca levantou ou procurou se arrogar o direito de ter sido o colaborador de Os sertões.

Outro aspecto bem mais atual é o aspecto das críticas que se fazem à ciência de Euclides da Cunha. Euclides da Cunha, em Os sertões, defende o autoctonismo do homem americano, defende o malefício da mestiçagem e defende o predomínio da raça branca sobre a raça negra. O que esses críticos se esquecem é que, naquela época, era a ciência da época. Hoje, evidentemente, essas teorias estão todas ultrapassadas. Mas, naquela época, era a teoria oficial, a ciência que havia no seu tempo e que não tinha sido modificada pelas descobertas de tempos posteriores. E nesse aspecto, há um estudo publicado na Revista Brasileira, chamado “Fundamentos científicos de Os sertões”, em que o autor consultou vários cientistas do campo da zoologia, da geologia, da meteorologia, e todos eles foram unânimes em dizer que a ciência que Euclides divulgou nesse livro era justamente a melhor ciência da época, correspondente ao desenvolvimento então existente.

Com a publicação de Os sertões, Euclides da Cunha é eleito para as duas grandes instituições culturais do Brasil na época, que eram o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e a Academia Brasileira de Letras. No Instituto Histórico, ele toma posse logo no ano de 1903 e este discurso muito interessante revela um profundo desencanto com a República. Ele realmente achava que a República tinha falhado em seus objetivos, os líderes republicanos tinham se tornado simples interessados em problemas pessoais, e portanto, ele manifestava, de maneira patente, a sua desilusão, utilizando até uma frase curiosa, que ele se considerava “um grego transviado nas ruas de Bizâncio”.

E a respeito desse discurso, o acadêmico Francisco de Assis Barbosa fez  uma conferência no centenário de Euclides da Cunha chamada “A marca de um drama”,  mostrando que o drama de Euclides da Cunha não foi só o de sua vida atribulada, mas foi o drama do desencanto com a República. São dois dramas que se conjugam.

Na Academia Brasileira, só vai tomar posse em 1906, em virtude da viagem ao Purus, sobre a qual nós falaremos em seguida. É interessante, na correspondência, ver a inquietação que ele manifestava com a possibilidade de ser derrotado. Ele teve 23 votos contra 6 votos de Domingos Olímpio e outros votos reduzidos, e quando foi eleito, teve orgulho dessa eleição. Escrevendo ao pai, dizia que ela mostrava o bom caminho que o pai lhe tinha ensinado e ele tinha sido eleito com as grandes figuras do Brasil, Machado de Assis e o Barão do Rio Branco.

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O pagamento do funcionalismo do Estado de São Paulo era muito vinculado à receita do café, e em 1903, há uma grande crise de café, redução nos salários dos funcionários, e Euclides, então, toma um outro caminho e vai trabalhar na Comissão de Saneamento de Santos; mas se indispõe com o chefe, e fica, então, desempregado. É um período muito dramático na sua vida, e Coelho Neto, que era seu grande amigo, aconselha que ele vá procurar Lauro Müller, colega de Euclides na Escola Militar, então ministro da Viação. E na correspondência para Francisco Escobar, há uma página tragicômica, em que ele diz que havia uma multidão de engenheiros desempregados esperando serem recebidos, e mencionava que todos eles eram gordos, mostrando que o desemprego estava vinculado à gordura - um autêntico “encilhamento da miséria”. E nesse momento alguém olha para ele e diz: - O senhor é Euclides da Cunha?- E ele: - Sou Euclides da Cunha - e essa pessoa, então, o leva ao gabinete do ministro, que o recebe com grande entusiasmo, mas que não oferece a ele nenhuma oportunidade prática.

Nessa mesma ocasião, o Barão do Rio Branco estava organizando  comissão para o reconhecimento do Alto Purus, por força do tratado entre Brasil e Peru. Então, Oliveira Lima e José Veríssimo apresentam o nome de Euclides da Cunha ao Barão do Rio Branco, e há aí episódio que está retratado com grande felicidade por Domício da Gama, inclusive, traçando um perfil de Euclides, que é um dos perfis mais bem-feitos de Euclides.

O Barão do Rio Branco trabalhava na casa em Petrópolis, da Westfália. Então, Domício conta que introduziu Euclides ao Barão do Rio Branco, e de vez em quando abria a porta, e estava o Euclides muito cerimonioso, e o Barão satisfeito de encontrar alguém que tinha os seus mesmos interesses do ponto de vista da Política, da Geografia, da História. E a conversa se prolongou até de madrugada.

E quando Euclides realmente pensava que ia ser nomeado engenheiro dessa comissão, o Barão do Rio Branco, percebendo as suas altas qualidades, o nomeia chefe da comissão. Euclides da Cunha então vai para Manaus, por uma temporada longa porque as instruções demoraram. Essa missão de reconhecimento do Alto Purus é uma das páginas mais extraordinárias de devotamento, de devoção ao trabalho, de interesse e de persistência. Em determinado momento, a vazante era grande, os barcos já não podiam navegar, tinham que ser puxados pela força humana, e há vários episódios que estão incluídos nos livros de Euclides, inclusive, o famoso banquete que um seringueiro ofereceu às duas comissões, a comissão brasileira e a peruana. Havia a bandeira peruana e não havia nenhuma bandeira brasileira. E ao final, então, Euclides pede a palavra para dizer que tinha entendido bem o gesto desse seringueiro, que em vez de botar um pano de regatão, tinha colocado as cores da bandeira brasileira no verde das matas e no ouro também das matas.

Volta para o Rio, apresenta um relatório - como eu disse, uma página muito importante do ponto de vista político e geográfico - e fica adido ao trabalho do Ministério das Relações Exteriores com o Barão do Rio Branco, numa posição muito instável, ofuscado pela figura do Barão. É interessante como um homem da envergadura de Euclides se coloca numa posição de inferioridade diante do Barão do Rio Branco que, aliás, tinha essa grande capacidade de escolher os melhores do seu tempo. É um Graça Aranha, é um Joaquim Nabuco, é um Gastão da Cunha, é um Lafayette, é um Clóvis Beviláqua.

Mas a posição de Euclides continuava instável, fazia trabalhos de cartografia, e sentia-se muito pouco à vontade no ambiente requintado do Ministério. Há um episódio em que ele trabalhava numa sala, e na sala ao lado, havia um diplomata que tinha acabado de voltar da Europa. Como era de estatura baixa, usava uns sapatos com uma sola muito grossa, e Euclides da Cunha então comentava: - Mas por que não anda de tamancos? Seria melhor. - Nessa posição, nota-se também que Euclides jamais ganhou, vamos dizer, a intimidade do Barão. Assim, nunca teve condições de pleitear junto ao Barão uma posição mais estável, como ele merecia, fazendo jus ao seu trabalho.

Então, em 1908, o ano anterior à sua morte, ele se candidata ao concurso de Lógica, no colégio que, naquele tempo, chamava-se Ginásio Nacional, e é hoje o Colégio Pedro II. Foi um concurso complicado, em que havia quinze candidatos e houve grandes dificuldades para se nomear a comissão examinadora. E Euclides, que não era um filósofo por assim dizer, mas tinha uma boa cultura filosófica, se candidata e comenta que os temas de prova tinham pouco a ver com a Lógica, eram muito mais temas de Filosofia.

O tema da prova oral era A idéia do ser, foi taquigrafado e por Félix Pacheco e publicado no Jornal do Commercio, e a prova escrita era sobre  A verdade e o erro. Ao final do concurso, ele se coloca em segundo lugar, e em primeiro lugar, é indicado Farias Brito. Naquela época, a legislação do ensino permitia que o presidente da República escolhesse entre os dois candidatos, e foi realmente um período muito difícil, com a demora para a escolha de quem seria nomeado. Farias Brito tinha o apoio das bancadas do Norte, Euclides da Cunha tinha o apoio de seus amigos, de Coelho Neto, e sempre se falou que o Barão do Rio Branco se empenhou por Euclides da Cunha. Mas há uma carta no arquivo do Itamarati, em que Rio Branco escreve para um colega de faculdade, que era pai do genro de Afonso Pena, e começa com essa frase: “Vai-se decidir o concurso de Lógica do Colégio Pedro II. Nunca dei uma só palavra em favor desse moço Euclides da Cunha, mas como não está havendo um pistolão muito grande, eu peço a você que fale com o Presidente para nomeá-lo.”

Afonso Pena morre pouco depois, e é Nilo Peçanha que, por influência de Coelho Neto, escolhe Euclides da Cunha para professor de Lógica. Ele toma posse no dia 15 de julho de 1909; seu antecessor, que era Escragnolle Dória, assiste à aula, que ele fez questão que assistisse. Euclides ainda estava um pouco nervoso, tímido, nunca tinha tido uma experiência de professor. Ele dá cinco aulas até a última aula, na sexta-feira, 13 de agosto, e no dia 15 de agosto, há o episódio da tragédia da Piedade em que ele é assassinado.

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Então, é importante aqui fazer certas considerações sobre Euclides da Cunha. Primeiro, porque, como falamos há pouco, ele nunca pôde produzir, depois de 1901, uma obra que se comparasse com Os sertões. Ele tinha vários planos de escrever um livro sobre o Rio seiscentista, uma monografia sobre o duque de Caxias, um estudo sobre os homens bons, a História da Devassa, mas tudo que ele deixou neste período são excertos, trabalhos, pequenos estudos, reunidos em dois livros: Contrastes e confrontos e À margem da História.

Realmente, ele veio do Amazonas empolgado com a região, com os meios de comunicações, e sempre falou em escrever um livro, O paraíso perdido, que ele nunca chegou também a escrever, e alguns excertos estão reunidos no livro À margem da História. Neste livro, há um capítulo ao mesmo tempo bonito e trágico, chamado Judas Ashverus, onde Euclides comenta que o seringueiro, na Semana Santa, veste o Judas com as suas próprias feições, para malhá-lo como uma forma de catarse, de revolta. E essa página lindíssima da literatura, Euclides estava extremamente receoso de publicá-la. Um dia, vai à casa de Coelho Neto, leu o capítulo e disse: - Não vou incluir esse capítulo no livro, porque acho que não está adequado.- Foi a mulher de Coelho Neto, D. Gabi, que insistiu, e ficamos com essa página do livro À margem da História.

Pronunciou conferência sobre Castro Alves e seu tempo no Centro Acadêmico 11 de Agosto em São Paulo. E temos a importante correspondência de Euclides da Cunha, que é realmente reveladora do seu temperamento, da sua retidão e da sua correção moral.

Em 1906, já com a família numerosa e empregos pouco rentáveis, ele se considerava o último dos românticos. Ele era realmente uma alma romântica, uma alma voltada para o espírito e desligado inteiramente das coisas materiais.

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O que mais eu poderia dizer, senão o que foi Euclides depois de sua morte? No primeiro processo do seu assassino, procurou-se denegrir a figura de Euclides, para justificar a legítima defesa. E já em 1909, um primo - Nestor da Cunha - levantou-se contra essa atitude, e a partir de 1911, os alunos do Ginásio Nacional, inclusive dois filhos de Lúcio Mendonça, Edgard e Carlos Sussekind de Mendonça, criam o Grêmio Euclides da Cunha, que em 1913, ganhou uma repercussão muito maior, com o apoio de Alberto Rangel, que foi colega de Euclides da Cunha na Escola Militar, e que escreveu o livro Inferno verde sobre a Amazônia,  prefaciado por Euclides.

Euclides só escreveu dois prefácios: o do Inferno verde e um prefácio do livro de Vicente de Carvalho, Poemas e canções, que é um prefácio muito interessante, porque ele procura mostrar a relação entre a ciência e a poesia.

O Grêmio, durante o período de 1913 a 1939, publicou uma revista anual, onde eram incluídos artigos sobre Euclides e, sobretudo, o levantamento da correspondência de Euclides da Cunha, que foi publicada pela primeira vez em 1938. Hoje há uma edição mais completa, feita por Walnice Nogueira Galvão e por Osvaldo Galotti, de São José do Rio Pardo, que era um euclidinista exacerbado e de valor, e que realmente é um material muito mais extenso.

Mas, se examinarmos o texto de 1938 ou o texto de 1997, o que se verifica realmente é o caráter romântico com que Euclides da Cunha encarava a vida, e o seu desinteresse material completo, sempre voltado para o estudo, para a pesquisa, para a elaboração dos seus trabalhos. A partir de 1939, ganham mais ênfase as atividades do Grêmio Euclides da Cunha de São José do Rio Pardo. Na verdade, o Grêmio Euclides da Cunha do Rio transferiu para São José do Rio Pardo o arquivo aqui reunido, que é um arquivo muito valioso, com correspondência, documentos etc. - e São José do Rio Pardo mantém hoje um movimento muito importante, Semana Euclidiana: a cada 15 de agosto, há uma romaria à pequena barraca de zinco, hoje coberta por uma redoma de vidro, onde Euclides trabalhava, inspecionando a obra e escrevendo Os sertões; uma conferência oficial, da qual têm participado as pessoas mais eminentes – Afonso Arinos, Alberto Rangel, Afrânio Peixoto, Guilherme de Almeida, Cândido Mota Filho; e um movimento muito interessante, a Maratona Intelectual, concurso sobre Euclides da Cunha, que reúne os alunos de colégios secundários da região ou do Estado de São Paulo.

Essa manifestação vem sendo mantida com grande persistência, e é um movimento realmente extraordinário numa pequena cidade no interior de São Paulo. Esse movimento mantém-se hoje também aliado à Casa Euclidiana, que era a casa onde Euclides da Cunha morou no período em que esteve em São José do Rio Pardo, e que, como museu, reuniu o acervo que foi doado aqui do Rio e tem sido enriquecido de outras manifestações. O que é extraordinário é que, realmente, passado mais um século, a obra de Euclides da Cunha continua extremamente atualizada, as edições se sucedem, apesar de ter um estilo não muito fácil de leitura.

No ano passado, a Academia outorgou o Prêmio Senador José Ermírio de Moraes a um médico do Paraná, Manif Zacharias, autor de Lexicologia de “Os sertões” - estudo da linguagem do livro, muito completo e muito extenso. E na verdade, Euclides da Cunha tinha muito orgulho da linguagem do seu livro. Logo que saiu a primeira edição, José Veríssimo, elogiando o livro, destacou que rebelou-se contra a linguagem científica do livro, e Euclides da Cunha, em duas cartas, procurou mostrar que aquela linguagem era adequada, e que quanto ao argumento científico, a linguagem científica devia ganhar maior atenção e maior cuidado.

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Acho que procurei dar uma visão completa da vida e da obra de Euclides da Cunha, num resumo em tão curto espaço de tempo, e vou terminar com uma frase que acho que é a melhor definição sobre Os sertões, dita por Afrânio Peixoto. Afrânio Peixoto foi o sucessor de Euclides da Cunha na Cadeira nº 7, e, no discurso de posse, fez realmente uma análise completa da vida e da obra de Euclides da Cunha. Em 1919, na conferência do Grêmio Euclides da Cunha do Rio, falou sobre o estilo de Euclides da Cunha: é a conferência sobre Dom e Arte de Estilo. Em São José do Rio Pardo, em 1942, falou sobre “O que resta de Os sertões”, justamente com a idéia de que certos autores ficam conhecidos ou marcados pela feitura de um único livro, e o que Euclides fez depois em Contrastes e confrontos, À margem da História e Castro Alves e seu tempo - embora sem a importância e a grandeza de Os sertões - eram também manifestações culturais de importância.

A frase de Afrânio Peixoto, para encerrar este depoimento, é a seguinte: “Euclides da Cunha foi o primeiro bandeirante dessa entrada nova pela alma da nacionalidade brasileira”.

 
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