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Ciclo de Conferências e Mesas Redondas em Comemoração ao Centenário de Morte de Euclides da Cunha

Programação completa


Ciclo Comemorativo do Centenário da Publicação de Os Sertões

Vida e morte nos sertões do Conselheiro (10/07/2001)
 

(Conferência proferida na Academia Brasileira de Letras, em 10 de julho de 2001, durante o ciclo Centenário da publicação de Os sertões.)

Frederico Pernambucano de Mello

As guerras têm representado um desafio permanente para os escritores, não só para os que se dedicam à história – nos primórdios, simples crônica de tratados e batalhas, como sabemos – senão para tantos ficcionistas, até mesmo poetas, que se deixando atrair pela exacerbação de energias humanas que os conflitos provocam, vão encontrar no extraordinário dessas circunstâncias o impulso para o seu projeto nas letras. O traço saliente em tudo isso parece ser o desafio a que nos referimos: a dificuldade de abarcar, relatar e compreender ou explicar uma guerra, representando a força de apelo principal que o tema possui.

Nem bem a tinta secara na rendição confederada de Appomatox, Virgínia, em 1865, pondo fim a uma das mais cruentas guerras civis da história, a da Secessão norte-americana, o escritor Walt Whitman sentenciava: “A verdadeira guerra jamais será narrada nos livros.” Hoje, bem mais de cem anos passados daquele instante de sombras, a bibliografia sobre a guerra do Norte democrático contra o Sul da plutocracia escravista se mede em milhares de obras, o que não impede - a confirmar as palavras do autor do Leaves of grass – que aspectos, como o comportamento por tantas passagens genial do presidente Lincoln, por exemplo, ainda se conservem francamente misteriosos.

Essa mesma força de apelo, com a presença de mistérios que valem para o intérprete como luva atirada em desafio, vamos encontrar na Guerra de Canudos, que contrapõe brasileiros em sintonia com os influxos de civilização européia chegados por mar, os brasileiros do litoral de Norte a Sul, a outros brasileiros, viventes – ou sobreviventes – daquele “outro Nordeste” da expressão sugerida por Gilberto Freyre a Djacir Menezes para título de livro de 1937 sobre o semi-árido setentrional, os brasileiros do sertão, da caatinga, do espinho, da seca como fatalidade intermitente, para os quais o couro figurava como fonte de todos os utensílios com que acalentar uma existência despojada de conforto, em regra, sem o mínimo de riqueza ou comodidade. Se é quase impossível narrar uma guerra, conforme salienta Whitman, mais difícil ainda essa tarefa se torna quando as partes em conflito – casos das guerras da Secessão e de Canudos – encarnam expressões de cultura não somente divorciadas entre si como antagônicas por muitos de seus aspectos. Falar da grande tragédia nacional de Canudos é falar da falha na colonização brasileira que destinou a litoral e sertão trilhas paralelas de desdobramento, dessa incomunicabilidade resultando o fato grotesco de se sentirem estrangeiros o litorâneo e o sertanejo, quando postos em face um do outro. Dantas Barreto, combatente ativo em Canudos, registra a estupefação que sentiu ao ouvir, numa conversa entre seus soldados, um deles dizer que pensava em fazer isso ou aquilo, “quando voltar ao Brasil”. Alertado, o cronista militar passa a se interessar pelo assunto e aprofunda a observação para logo concluir sobre o ambiente do nordeste baiano que não parecia estar-se no próprio país, e os homens que nos apareciam pelos caminhos quase desertos nada tinham de comum com os habitantes do litoral do Norte ou dos Estados do Sul (...) cabelos sempre crescidos; barbas longas, sem o menor cuidado; constituição franzina, angulosa; olhares vagos, sem expressão; movimentos indiferentes, de quem tudo lhe parece bem; o homem, enfim, sem atavios nem artifícios.[1]

A ausência natural de vaidade e de apuro, concorrendo com a assimilação intuitiva das lições que a natureza dava aos gritos, na eloqüência dos rigores de um meio físico pouco menos que desumano, responde pela singeleza admiravelmente funcional do trajo do povo do Belo Monte e dos seus arredores, consistente, nas mulheres, de uma saia de chita ordinária ou de algodão branco, a que sobrepunham uma blusa leve e frouxa de tecido similar, enquanto os homens costumavam servir-se do algodão listrado ou azul, para as calças, e do mesmo algodão, inteiramente branco, para a camisa, trazendo aos pés alpercatas de couro cru. Nos que se montavam, a fatalidade do traquejo com o gado ou a miunça – o arraial era todo ele uma grande fazenda de cabras e ovelhas – criava a ambição pelo chapéu, guarda-peito e gibão, todos de couro, alguma vaidade revelando-se nuns “sapatos também de couro vermelho ou alaranjado, conforme o rigor do costume”, e no chapéu, em que o couro de bode se apresentava curtido, ainda que artesanalmente, na golda do angico, reservando-se para os mais caprichosos o emprego do couro de veado.[2]

O trajo de cores leves, combinações suaves, com a predominância maciça das tonalidades claras, se na paz respondia por uma vantagem ecológica fácil de avaliar vis-à-vis da soalheira que cresta os campos ao longo do ano inteiro, na guerra, esbatido contra o alaranjado do solo e o cinzento da caatinga, mostrava-se capaz de produzir um mimetismo que não pouco desespero levou aos atiradores das forças legais. Mas não só na disposição de manter as cores neutras da vestimenta dos tempos normais se bastou a atitude dos jagunços por ocasião do conflito. Há evidências de terem sintonizado intuitivamente com a alta virtude militar da invisibilidade do grupo combatente, através de esforço deliberado em favor do mimetismo a que aludimos. Atente-se para esse registro do correspondente de guerra do Jornal do Brasil, do Rio de Janeiro, de 26 de julho de 1897:

Os jagunços vestem-se de folhas para serem confundidos com o mato, e trazem campainhas ao pescoço e berram como carneiros para poderem aproximar-se das forças e atacá-las.

À parte a insídia sonora, nada desprezível em seus efeitos na guerra, o que temos nesse registro – um, em meio a tantos outros – é a comprovação surpreendente de uma antecipação militar levada a efeito pelos conselheiristas: a do empenho em favor da invisibilidade. E se falamos de surpresa e de antecipação é porque a história militar tem datado de 1904, da campanha da Mandchúria, a primeira ocorrência desse tipo de esforço, atribuído ao exército do Japão, em guerra contra a Rússia, esforço que, aliás, só viria a se generalizar ao longo da Primeira Guerra Mundial.

Enquanto isso se dava, o nosso Exército fazia uso de cores fortes e contrastantes no trajo – fatores, ambos, de facilitação para o tiro do inimigo – avultando no conjunto, ao lado do azul-escuro e do cinzento carregado das túnicas, a chamada calça garance, também do regulamento, resultado do emprego da garança, é dizer, do corante vegetal que produz a mais viva tonalidade do vermelho: a escarlate. É curioso assinalar que a farda extravagante do nosso soldado em Canudos não era fruto da evolução natural dos traços, cores, estilos e emblemas lentamente fixados ao longo do período colonial na vestimenta de nossas forças armadas, passando pelo momento culminante da Guerra do Paraguai. Ao contrário, estava-se diante de uma ruptura. De uma demasia com que a República procurava afirmar-se bebendo em figurino sobretudo francês que estava sendo questionado na própria origem. Data de 1890 o início dessa revolução estética, que se cristalizaria na adoção do dolmã europeu da cavalaria ligeira, na cor cinzento-escuro, e da calça garance com friso dourado, através do Decreto no 1.729, de 11 de junho de 1894. Não satisfeitos, apenas dois anos depois os planejadores das galas republicanas trocavam o cinzento-escuro da túnica da infantaria pelo ainda mais forte azul-ferrete. Prova do desacerto da reforma está em que a calça-bombacha, abolida então, sobrevive na tropa por mais dez anos, sendo das peças de vestuário mais vistas nas fotografias colhidas em Canudos. Pudera. A história registra que o mestre-de-campo João Fernandes Vieira, governador de Pernambuco, enfrentava os holandeses no meado do século XVII... trajando bombachas.[3] Em publicação oficial do Exército brasileiro, de 1910, parte referente à orientação para o tiro de fuzil, vamos encontrar que as cores jagunças do branco-areia e do azul celeste desaparecem ao olho humano entre os 150 e os 260 metros, enquanto que “as cores vivas são perceptíveis a 300 metros”. Especificamente sobre o “encarnado escarlate”, o manual não vacila: “é visível na maior distância a que atinge a vista humana”. O jagunço, pródigo na criação de nomes pejorativos para tudo, muito cedo apelida o nosso soldado de saia-encarnada.[4]

O assentamento de povoado tão populoso e denso arquitetonicamente, em apenas quatro anos, tendo por origem um arruado de cerca de 50 choupanas situadas em terras derredor do capelato de Santo Antônio, à margem esquerda do Vaza-Barris, vis-à-vis da casa-grande da velha fazenda Canudos, da gente do barão de Jeremoabo, propriedade à época em decadência, surpreende, intimida e, por fim, chega a apavorar os burgos vizinhos, antigos e estagnados, o mesmo se dando com os latifúndios em volta, enleados numa crise de braços para o trabalho, que minguavam na ordem inversa da expansão do ajuntamento pio. O barão, à frente de um movimento de proprietários rurais, faz uso da imprensa de Salvador para mostrar aos governantes a impossibilidade de sobrevivência das fazendas ante o ímã de braços para o trabalho que se ativava no Belo Monte, tudo porque, olhos fixos no peregrino, o povo em massa abandonava as suas casas e afazeres para acompanhá-lo. A população vivia como se estivesse em êxtase(...) Assim, foi escasseando o trabalho agrícola e é atualmente com suma dificuldade que uma ou outra propriedade funciona, embora sem a precisa regularidade.[5]

Além desse receio patrimonial, um outro se impôs, mais agudo até: o da segurança dos residentes nas proximidades do Belo Monte. Em Canudos havia gente de todo tipo, especialmente aqueles “náufragos da vida”, da expressão de que se servia o padre Cícero para caracterizar um tipo de gente que chega não se sabe de onde, mãos e olhos vazios, sem passado, surgidos do nada. Havia desse rebotalho humano em Canudos. Também muitos beatos. Também comerciantes de talento, como Vilanova ou Macambira, que brilhavam na paz, ao lado de cangaceiros, como Pajeú ou José Venâncio, que brilharam na guerra. Não havia prostitutas. Nem jogo. Nem cabaré. Nem mesmo dança. O álcool era controlado com rigor. A polícia regular, ausente e declarada indesejável. Inadmissível, mesmo. Ninguém queria sequer ouvir falar de impostos, todos parecendo regalar-se na atitude ingênua de viver na fronteira entre o regular e o irregular em economia, um pé dentro e outro fora também da realidade política e administrativa do país. No Brasil, sem ser Brasil. Sem receber a polícia ou o cobrador de impostos.[6] Nesse sentido, e mais quanto ao regime de propriedade original que veremos adiante, pode-se dizer com segurança que Canudos rompia com a ficção rousseauniana do contrato de submissão espontânea da sociedade ao estado nacional, abrindo uma vereda de utopia a se bifurcar, em maior ou menor tempo, nos rumos fatais da adaptação ou do choque.

Em geral, o cenário no Belo Monte era de pobreza, especialmente sanitária. O crescimento vertiginoso do burgo, o apinhamento do casario, sobretudo nas áreas de adventícios, a estreiteza e a irregularidade das ruas, o esgotamento precário de resíduos, tudo confluía para as más condições de higiene, atenuadas pela proximidade do leito do Vaza-Barris e pela insolação tão direta quanto permanente, de efeitos anti-sépticos nada desprezíveis. Mesmo no inverno, dificilmente o sol permitia que sua ausência se fizesse sentir ali. No verão, o corte das águas do grande rio torrencial não privava o sertanejo do seu líquido, criando apenas uma dificuldade a mais: a da abertura de cacimbas rasas no leito arenoso, a serem aprofundadas com o avanço do rigor do estio – que vai de março a setembro, quando sobrevêm as trovoadas – mas de onde sempre se extraia, com 4 a 6 palmos de escavação apenas, a melhor água disponível no local, a cota anual de chuvas, em torno dos 600 mm, situando-se bem no que toca ao arco de precipitações do semi-árido nordestino, oscilante entre os 300 e os 1.000 mm.[7] O mais era a organização, sobretudo pelas mulheres, da romaria de potes de barro e de cabaças gigantescas – havia ali tão grandes que delas se fazia berço de menino – dessa forma imemorial dando-se o abastecimento das casas em regra muito humildes. Um combatente pelo governo nos legou, no particular, um retrato bem focado da moradia ordinária dos jagunços, referta de elementos ecológicos interessantes em seu despojamento:

Habitavam pequenas casas de taipa, cobertas de ramas de coirana, sob uma camada espessa de barro amassado, normalmente com três peças de pequenas dimensões, em que nada mais se encontrava além de uma rede de fibra de caroá na sala, e um jirau de varas presas entre si por meio de cipós resistentes ou embiras de barriguda, no quarto exíguo de dormir. Cozinhavam em grosseiras trempes de pedras, colocadas para um canto da outra peça, que lhes servia de sala de refeições,ou na área do terreiro (...) Todo o trem de cozinha e de mesa, se porventura havia mesa, era igualmente de barro cozido, tosco e grosseiro.[8]

Contendo a amargura que tanta singeleza possa causar a olhos civilizados, convém registrar não ter passado despercebida ao cronista militar a circunstância de tais moradias representarem para seus ocupantes, “despreocupados dos ruídos da civilização”, um ambiente “alegre e confortável, que não queriam abandonar”, confirmando-se, na arquitetura do Belo Monte, o relativismo radical do conceito de bem-estar. A magreza de meios não tolhia a possibilidade daquela gente simples ser feliz, metida nas casinholas desarrumadas do burgo vastíssimo, nas quais a comunicação com o exterior era feita por uma porta única geralmente destampada e, só em casos raros, coberta por esteira pendente ou sola batida, nada de janela ou porta de trás, padronizadas, todas, na cor avermelhada e ferruginosa do barro de que se compunham. No sentido do poente, na orla da praça apertada entre as igrejas esbranquiçadas e dispostas testa com testa uma da outra, formara-se o bairro mais favorecido do arraial, a chamada Vista Alegre ou Casas Brancas, local de moradia de abonados como Antônio Vilanova e João Abade, o segundo, autoridade a quem cabia enfeixar nas mãos duras toda a malha da ordem e da segurança públicas. O ocre predominante em mais de 80% do casario, aqui cedia passo a um tom cinzento claro de cal, as casas um tanto maiores, confortáveis, mais bem assistidas de passagens e – símbolo inquestionável de status – cobertas por telhas francesas de barro cozido. Há notícias de que se pisava em taco de madeira em algumas destas.

As casas e os caritós do Belo Monte se dotariam para a guerra de dois artifícios tão insidiosos quanto eficazes em sua singeleza: o da abertura de orifício ao pé da parede ou torneira, para o sossegado tiro de ponto do tocaieiro, e o do rebaixamento do piso, com que esse escopeteiro se furtava aos efeitos do fogo dos atacantes. Acrescendo na velhacaria do esquema defensivo, o burgo era cortado em várias direções por cercas e valados, estes últimos com longos trechos cobertos por tábuas sob as quais os jagunços se deslocavam à margem das vistas dos atacantes, surgindo, de surpresa, aqui e acolá. O solo duro do arraial permitia ainda que as casas se comunicassem entre si por subterrâneos formadores de largos blocos de resistência em comum, também aqui valendo a iniciativa para propiciar uma mobilidade tática de efeitos fáceis de avaliar. Só pela fome ou pelo fogo se conseguiria neutralizar de todo os meandros tentaculares da resistência jagunça, espraiados pela mancha inteira da povoação, um baixio de superfície irregular e cerca de 53 hectares de área, estreitado à volta por serras com altitude média de 500m, o ponto culminante não indo além dos 659m e a cota geral da microrregião, dos 400 m.[9]

Com o criatório de gado e especialmente de miunça se espalhando caatinga adentro, solto, quase selvagem, indiviso, a depender do ferro e do sinal da tradição honrada em comum no que toca à propriedade, a agricultura fazia do leito e das encostas marginais do Vaza-Barris o seu espaço de desenvolvimento, florescendo ali, como em tantos outros lugares do sertão, o feijão de arranca, o milho de sete semanas, a mandioca, a batata-doce, a mangaba, o jerimum, a melancia e até mesmo, em baixios e vazantes, coqueiros e alguma cana-de-açúcar, tudo na linha estrita da subsistência. Nas Umburanas, a meia légua do arraial, havia moendas para o fabrico da rapadura. O emprego largo do algodão fiado bruto – as casas, em geral, continham roca e fuso – sugere que essa fibra pudesse ser cultivada ali, dividindo espaço com a flora silvestre. Com o juazeiro de sombra abençoada e aplicações múltiplas, inclusive sanitárias; com o umbuzeiro, a um tempo capaz de refrescar com o seu fruto e de dessedentar com as batatas de sua raiz; com a quixabeira medicinal; com o angico e a aroeira de serventia para tudo, sem esquecer os espinhos brabos do mandacaru, do alastrado, do xiquexique e da macambira, dos quais se lança mão na seca como alimentação rústica para o gado, após queima domesticadora. Quando o fumo da soldadesca chegou a zero, a folha seca da aroeira foi atochada nos cachimbos – já não havia papel para fazer cigarros – e se revelou sucedâneo bem apreciado.

Com o mocó, o punaré ou o preá, fregueses dos serrotes de pedra, abria-se sempre uma fonte adicional de proteína para os residentes mais escopeteiros, ao lado das rolinhas, do lambu, da codorna e das aves de arribação. Toda essa fauna, além de escassa, mostrava-se arisca, exigindo olhos de sertanejo, de quase índio, para ser divulgada no cinzento da caatinga com alguma segurança para o tiro ou a flechada. Nesse ponto, o mimetismo do veado, do teiú e do camaleão apenas encontra rival na desconfiança do peba e dos tatus em geral, que tudo era socorro ao alcance do nativo do sertão. Do catingueiro de olhos argutos e presença sutil. E não se omita, por grave, a menção ao mel de abelha, o mel de pau do falar do sertanejo, tão rico em seu aspecto alimentar quanto variado em sabor, à vista da pluralidade de espécies que voejam no sertão, a exemplo da arapuá, da capuxu, da cupira, da mandaçaia, da moça-branca, da tataíra, da tubiba, da uruçu e até mesmo de uma que pode ter implicação com o nome do lugar: a canudo. E que fique a chave de ouro para a “verdadeira ração de guerra daqueles sertões”, a paçoca, feita de “carne-de-sol pilada com farinha e rapadura”, aliando ao teor nutritivo a resistência à deterioração e a facilidade de transporte em lombo de burro, acondicionada em malas ou sacos.[10]

O Belo Monte fervilhava naquele início de 1897 como centro importador de gêneros especialmente das localidades próximas, de Jeremoabo, de Tucano, de Uauá, da Várzea da Ema e até de Feira de Santana, mas uma robusta ajuda local era desencavada pelos residentes no esforço por minimizar os efeitos da irregularidade de fluxo das tropas de burro provindas da vizinhança, única forma de abastecimento externo eficaz à época. Não jazia inerme o povo do Conselheiro à espera das riquezas de fora, olhos postos na estrada. Prova disso viria com os sobreviventes da terceira expedição, entre os quais se inscreve a voz qualificada do tenente Francisco de Ávila e Silva – ajudante de ordens de Moreira César e por este presenteado, in extremis, com seu “rico punhal de prata” – acordes em seus testemunhos quanto à existência derredor do arraial de “roças de cereais abundantes e criações numerosas”. Depoimento recente, dado por ancião residente na área, filho de jagunços, vai além na configuração da economia do Belo Monte, agregando a esta um caráter ativo, exportador, representado por contratos de fornecimento de peles de bode celebrados por Antônio Vilanova com os centros de Juazeiro e Feira de Santana.[11] É informação de hoje que encontra abono em registro do passado, da época da guerra, deixado por militar que avançou com sua unidade sobre o bairro mais remediado de Canudos, onde pôde ver que a casa de Antônio Vilanova “era um armazém sobremodo vasto, com balcão, balança, etc.”, e que uma “considerável quantidade de peles” se achava estocada na de João Abade. À mesma fonte ficamos a dever ainda a informação, o seu tanto surpreendente, de que as “casas de telha”, quase todas “extensas e bem edificadas”, servindo em regra aos homens de negócio da vila, beiravam pelas 1.600 unidades.[12] São fartos os sinais de que havia certa pujança econômica ali, para além da pura atividade de subsistência. E não espanta constatá-lo à vista dos fatores que se encadeiam nessa linha com prodigalidade. Assistido por sete estradas de fluxo vivo, impermeável à politicagem aldeã, sem problemas graves de água, clima propício ao criatório, ilhas de fertilidade para a agricultura de base, mais a ausência completa de impostos e o calor da fé religiosa a mais obreira que se possa imaginar, o Belo Monte sobejava naquele complexo de causas que a história tem mostrado ser suficiente para multiplicar, da noite para o dia, as comunidades fundadas no misticismo. Não é tanto o mistério do quanto se fez em quatro anos naquele cotovelo longínquo do Vaza-Barris. Quatro anos que bóiam sobre uma década de invernos regulares, não esquecer.

A inquietação gerada pelas andanças de bandos de conselheiristas pelas terras que emendavam com a vila não era miragem. Mas certamente há de ter sido ampliada nas denúncias da elite econômica tradicional, apresentadas às autoridades públicas do Estado da Bahia numa expressão de pânico bem compreensível da parte de quem tinha o que perder com qualquer alteração no establishment, tanto mais quando se estava a pouca distância da superação de dois abalos de peso causados pelos adventos da Abolição e da República. A primeira, não apenas aceita como posta a serviço do adensamento humano do arraial, sabido que Canudos absorveu grande parte da chamada gente do Treze de Maio, errante pelo sertão na embriaguez de uma liberdade que cedo mostraria a face real de abandono. A segunda, a República, vista com desconfiança por conta do esforço de laicização das instituições, dentro da tendência de separação entre Estado e Igreja, objetivo caro aos republicanos, especialmente os militares, e que se expressava por metas como a da implantação do casamento civil ou a da secularização dos cemitérios.

Canudos se fechava à República por não aceitar que o Estado se afastasse da Igreja. Até mesmo o dinheiro republicano, então inflacionado, chega a ter a circulação interditada parcialmente no arraial. No sentido inverso, era o governo, pelas lideranças econômicas e autoridades públicas, que tinha dificuldade em aceitar o regime social vigente em Canudos, notadamente no que diz respeito à tendência de coletivização dos meios de produção, em outras palavras, à espécie de socialismo caboclo que ali se implantara e que se expressava sedutoramente, mesmo para o adventício mais tosco, na forma da posse comum de uma terra inapropriável senão por todos, o mesmo regime cobrindo os rebanhos e os frutos do trabalho coletivo, exceção aberta apenas para a casa de morada – mas não para o chão – e para os bens móveis. Que dessa desconfiança recíproca tenha resultado um apego ainda maior dos sertanejos pela Monarquia, naturalmente inclinados à conservação de valores primitivos como eram, não há qualquer dúvida; mas daí a se pensar que as lideranças do trono brasileiro decaído tivessem chegado a militar efetivamente em favor dos revoltosos do nordeste baiano, é conclusão que jamais teve por si qualquer prova, ontem como hoje, não indo além do boato. Boato, aliás, muito bem administrado pela imprensa jacobina simpática à legenda de Floriano Peixoto, que se encarregava de disseminá-lo para colher os frutos do pânico propositadamente instilado nos adeptos de um regime republicano mal saído dos cueiros, ainda incerto em seus rumos juvenis e que se dizia atacado no sertão por armas surdas e balas explosivas.[13] Nem militância de monarquistas, nem armas surdas ou balas explosivas, eis o que sustenta categoricamente Dantas Barreto, para quem a ação dos saudosistas do Império em face da guerra “foi toda platônica”. Quanto ao armamento, são dele estas palavras ainda uma vez categóricas:

... as armas e munições que existiam na cidadela do fanatismo não iam além das que os jagunços houveram das diligências e expedições destinadas a batê-los, e dos desertores de Sergipe e Alagoas ,tudo aliás em número tão considerável que nos produziram os maiores estragos.O mais eram armas e munições de caça,que já não se empregam senão em lugares remotos do interior.[14]

“Em tempo de guerra, mentira no mar e na terra”, reza o ditado, que não seria desmentido nos sucessos de 1897. A imprensa do Sul do país cansou de falar de uma conspiração monarquista para abastecer os jagunços de armas e utensílios importados, inclusive das fantásticas balas explosivas, em torno das quais formou-se um boato de pedra, ainda repetido em nossos dias com foros de realidade. Esse tema das supostas balas explosivas, que fez furor na imprensa de todo o país, não brotou do nada. Nem de imaginação ou má-fé. Surgiu a partir de telegrama enviado de Canudos pelo próprio comandante geral da quarta expedição ao ajudante-general do Exército, no Rio de Janeiro, no dia 6 de julho de 1897, em termos que traem uma grande inquietação, como se pode ver:

Inimigo admiravelmente bem armado comMannlicher, Comblain, Mauser, Kropatschek, armas surdas e balas explosivas, sendo estas as que têm em maior número. São horríveis os ferimentos por balas explosivas. Saudações. General Artur Oscar.[15]

A mensagem-bomba do general comandante punha fogo nas mentes já aquecidas da militância republicana por dois de seus pontos, ambos de grande delicadeza. Falar de balas explosivas era admitir a entrada no Brasil, em quantidade extraordinária, de petrechos inteiramente estranhos às nossas forças de terra e mar, sendo forçoso concluir-se pela ocorrência de contrabando vultoso de material bélico o mais moderno, e de procedência européia, ao que arriscavam os peritos no assunto. Daí a se atribuir um fluxo assim sofisticado às lideranças monarquistas exiladas em peso na Europa, ia um passo bem pequeno. Poucos não o deram naquele meado de 1897. Como poucos não vieram a recear que a Marinha estivesse novamente em cena contra uma República ainda pintada de verde-oliva, uma vez que os fuzis Kropatschek, mencionados pelo general Oscar, se inscreviam notoriamente como item de serviço exclusivo da força naval. E se estavam em Canudos... A outros acudiu que essa arma também era adotada pelo exército português, um país onde a monarquia, irmã da nossa, ainda estava firme... E nova corrente alarmista se formava. Poucas vezes a opinião pública nacional deu curso a tanto delírio. Havia quase um ano que a Bahia se achava mergulhada numa atmosfera de boatos a mais irresponsável, a mais histérica, a futrica dos partidos políticos se produzindo sem cessar, a serviço de oligarquias que não se detinham diante de nada. Com tanta desconfiança à solta, para o rompimento das hostilidades bastava que uma centelha atingisse a atmosfera tornada perigosamente volátil. Esta vem na forma de um telegrama de juiz de Direito do sertão ao governador do Estado, com pedido de garantias para a sua cidade, supostamente ameaçada pela cabroeira do Conselheiro. É assim que o conflito se instala a partir daquele 29 de outubro de 1896, incendiando os sertões e silenciando a viola anônima posta a serviço da confiança cega do matuto em seu condutor inefável:

O anticristo chegou
Para o Brasil governar
Mas aí está Conselheiro
Para dele nos livrar.

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* Conferência proferida na Academia Brasileira de Letras, durante o ciclo Euclides da Cunha, em 10 de julho de 2001. Frederico Pernambucano de Mello é Superintendente do Instituto de Documentação da Fundação Joaquim Nabuco, autor de várias obras, entre as quais A guerra total de Canudos.

[1] Dantas Barreto, Destruição de Canudos, pp. 52 a 53.

[2] Dantas Barreto, op. cit., pp. 13 a 15, e Acidentes da guerra, p. 179.

[3] Gustavo Barroso, História militar do Brasil, pp. 84 a 85, passim; Diogo Lopes Santiago, História da Guerra de Pernambuco, p. 580; Walnice Galvão, No calor da hora, pp. 240, 252, 291, 303 e 318, com testemunhos sobre a invisibilidade do jagunço. Ver ainda Macedo Soares, A Guerra de Canudos, p. 104.

[4] Vitorino Godinho, Combate da infantaria, p. 330; José Calazans, No tempo de Antônio Conselheiro, p. 120; Ildefonso Escobar, Catecismo do soldado, pp. 197 a 198.

[5] Jornal de Notícias, edição de 4 de março de 1897, apud Consuelo Novais Sampaio, Repensando Canudos: o jogo das oligarquias, Luso-Brasilian Review, v. 30, n. 2, 1993, p. 106.

[6] José Calazans, entrevista a José Carlos Sebe Bom Meihy, Luso-Brasilian Review, loc. cit. nota acima; Edmundo Moniz, A guerra social de Canudos, p. 43.

[7] Arqueologia histórica de Canudos, p. 25; Manuel Correia de Andrade, A terra e o homem no Nordeste, p. 27; Frederico Pernambucano de Mello, Guerreiros do sol, p. 11, onde se vê que o arco litorâneo ia dos 1.000 aos 1.800 mm. Felipe Guerra, Ainda o Nordeste, p. 11, mostra que as secas no sertão do Rio Grande do Norte podiam baixar esse piso para exíguos 140 mm, como em 1898. Atente ainda o leitor para o que nos traz Elói de Souza, no seu O calvário das secas, pp. 47 a 48: nos estados do sudoeste norte-americano essa cota anual não vai além dos 264 mm. Na Argélia, dos 735 mm.

[8] Dantas Barreto, loc. cit. nota 1, p. 12. Não há discrepância, senão em detalhes geralmente de nomenclatura, entre as várias descrições testemunhais da casa jagunça, a de Dantas sendo uma das mais plásticas e completas. Não se engane o leitor quanto a estarmos diante de realidade viva: o caritó do Belo Monte, com ligeiras variações locais de componentes, sendo o mesmo quixó da favela urbana de hoje, especialmente no caso das invasões. Salvo no que toca à aligeirada adaptação para a guerra, a casa jagunça não nos põe diante de nenhum exotismo. De nada que não seja familiar a olhos brasileiros, em geral, e nordestinos, em particular.

[9] Iara Dulce Bandeira de Ataíde, Origens do povo do Bom Jesus Conselheiro, Revista USP – Dossiê Canudos, n. 20, dez – fev, 1993/94, p. 91; Arqueologia histórica de Canudos, p. 25; Dantas Barreto, Acidentes da Guerra, pp. 312 a 313 e 319, e Última expedição a Canudos, p. 151; Walnice Galvão, op. cit., pp. 242, 255 e 263. A adaptação da casa jagunça para fim militar está considerada em Dantas, Última expedição, p. 146; em Walnice Galvão, loc. cit., p. 421, e especialmente em Tristão de Alencar Araripe, Expedições militares contra Canudos, pp. 195, 202 e 214, com registros de época feitos, respectivamente, pelos generais Artur Oscar e Carlos Eugênio, e pelo major Frederico Lisboa de Mara. Ainda sobre a felicidade do residente do Belo Monte, além dos registros mencionados, de Dantas e de Walnice, ver Macedo Soares, op. cit., p. 143.

[10]Juvenal Lamartine de Faria, Velhos costumes do meu sertão, p. 35; Macedo Soares, op. cit., pp. 182 a 184; Dantas Barreto, Destruição de Canudos, pp. 128, 150 e 168 a 169; Oswaldo Lamartine de Faria, Sertões do Seridó, pp. 107 a 117. Sobre a comida braba dos caboclos no paroxismo das secas, recomendamos a leitura do livro O problema alimentar no sertão, de Orlando Parahym, p. 75.

[11] Diário de Pernambuco, edição de 14 de março de 1897; O Estado de S. Paulo, edição de 4 de agosto de 1996, contendo entrevista com João Reginaldo de Matos, o João Régis, de 89 anos.

[12] Macedo Soares, op. cit., pp. 362 a 363.

[13] Guilherme Studart, Geografia do Ceará, p. 84; José Calazans, loc. cit.. nota 6, pp. 27 a 28.

[14] Dantas Barreto, Última expedição a Canudos, p. 14; Walnice Galvão, op. cit., pp. 295, 296 e 298, com a polêmica áspera aberta entre o general comandante e o correspondente do Jornal do Commércio, do Rio de Janeiro, em torno das imaginárias “armas surdas e balas explosivas”.

[15] Macedo Soares, op. cit., p. XIII.

 
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