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Ciclo de Conferências e Mesas Redondas em Comemoração ao Centenário de Morte de Euclides da Cunha

Programação completa


Ciclo Comemorativo do Centenário da Publicação de Os Sertões

Os Sertões faz cem anos: o alcance das idéias de Euclides da Cunha (03/07/2001)
 

(Conferência proferida na Academia Brasileira de Letras, em 03 de julho de 2001, durante o ciclo Centenário da publicação de Os sertões.)

Walnice Nogueira Galvão

O panorama histórico brasileiro da virada de século impregna de modo inescapável a concepção de Os sertões. Isto porque à proclamação da República em 1889, um ano após a libertação dos escravos, sucedem-se tempos que assistem à eclosão de insurreições e levantes de todo tipo pelo território nacional afora, desde aqueles geograficamente restritos até os mais alastrados. Antes que o novo regime se consolide e entre em funcionamento, vários anos decorrerão. A Guerra de Canudos, desencadeada no sertão da Bahia em 1896-1897, não passa de uma dessas revoltas que compõem o cortejo de uma mudança de regime. Dedicado à crônica de um evento histórico que o autor testemunhou de corpo presente, Os sertões tem por objeto essa guerra.

O primeiro contato de Euclides da Cunha com seu objeto viria através da participação na Guerra de Canudos como enviado especial do jornal O Estado de S. Paulo. De lá remeteu uma série de reportagens, que se tornariam célebres. Entretanto, o interesse maior da série é o fato de poder ser vista a posteriori como o embrião de Os sertões.

Essa guerra foi um marco na história da imprensa nacional devido a seu impacto fora do comum: pela primeira vez no país procedeu-se a uma cobertura jornalística em bloco no palco dos acontecimentos, viabilizada pela recente instalação de linhas de telégrafo sulcando o sertão. As principais folhas de Rio, São Paulo e Bahia criaram uma coluna especial, quase sempre intitulada “Canudos”, dedicada exclusivamente ao assunto, por toda a duração da guerra. Além disso, estampavam qualquer coisa: invencionices, pareceres dogmáticos de militares de partido previamente tomado, documentos forjados, cartas falsas. A divulgação de todos esses materiais tinha por objetivo comum reforçar a idéia de uma iminente restauração monárquica. A utilização desse veículo era imperativa: à época, o jornal constituía o mass medium por excelência, no vácuo da futura invenção da comunicação audiovisual.
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Voltando da guerra, Euclides se dedica a acumular uma notável gama de saberes para enfrentar seu objeto, e só em 1902, cinco anos depois, o livro é lançado, com êxito fulminante. É com a primeira parte, intitulada “A Terra”, abrindo o livro como um majestoso pórtico, esplêndido em suas galas literárias, que o leitor entra em contacto com Os sertões, mediante o privilégio concedido ao espaço.

Considerando a região de Canudos de três pontos de vista, a saber, o topográfico, o geológico e o meteorológico, o autor trata-a com paixão, dando margem a imponentes quadros naturais. Os rios se precipitam, saltam e tombam em catadupas, enquanto a terra firme imita a movimentação fluvial nas contorções de seus acidentes e nos embates entre as diferentes camadas geológicas que a sustentam. Em suma, uma paisagem extraordinária, que mais parece obra da mão do homem, mas em escala monumental, à feição de menires colossais ou ruínas de coliseus ciclópicos.

Mas tudo isso é visto de tão alto e de tão longe que só se deixa identificar através de uma espécie de olhar de Deus, vislumbrando um deserto imemorial, morto de sede, morto de insolação. As próprias forças cósmicas só podem ser expressas por antíteses.

Como prova do caráter insólito do sertão, o autor submete o leitor a um tratamento de choque, propiciando-lhe o encontro com um soldado que parece deitado a dormir, mas que de fato está morto há vários meses, porém em perfeito estado de conservação por ter sido naturalmente mumificado pela secura dos ares.

O flagelo das secas merece especial atenção, dedicada sucessivamente a várias hipóteses sobre sua gênese, que vão desde a influência das manchas solares até o peculiar regime dos ventos. Mais adiante passará das hipóteses a propostas de solução.

As plantas da caatinga se desenvolvem entre dois meios desfavoráveis, quais sejam o terreno árido e o calor do sol. Assim, suas mutações adaptativas vão todas no sentido de proteger-se da morte ou por sede ou por insolação. Mas as estratégias defensivas variam: atrofiar-se, resultando em nanismo que expõe menos superfície às intempéries; enterrar-se, e mal aparecer acima do solo; ou congregar-se em plantas sociais, retendo com suas raízes emaranhadas no subsolo a água e a terra, além de reforçar a segurança mútua.

O autor, em suma, conclui que o sertão de Canudos é único, pois suas características não coincidem exatamente com nenhuma taxonomia pré-existente, ao enfatizar como “a natureza se compraz em um jogo de antíteses”.

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Do meio físico o autor passa ao exame das etnias. A questão primacial – e por isso a mais complexa – no estudo do homem brasileiro é para ele a mestiçagem, nó conceitual com que se debatiam à época todos os pensadores do país. Dela resultou o sertanejo, com suas características próprias, de corpo e de espírito, herdadas do embate entre as três etnias que lhe deram origem. Tais características, segundo o autor, implicam em vantagens e desvantagens. Entre as primeiras enumera a adaptação ao meio hostil, a resistência, o estoicismo. Entre as segundas conta o fanatismo religioso, a superstição, o equilíbrio psíquico instável, além de um considerável atraso com relação à marcha da civilização.

O determinismo que preside a essa minuciosa análise do meio físico e dos componentes étnicos vai eclodir, também deterministicamente, na pessoa daquele que portava o nome de Antonio Vicente Mendes Maciel, o Peregrino. Com efeito, este constituiu uma síntese do processo histórico em que as correntes de povoamento resultaram, através da miscigenação no isolamento.

O diagnóstico de Antônio Conselheiro é contraditório, o leitor percebendo a hesitação do autor entre considerá-lo um grande homem e decretá-lo “doente grave”, afetado de paranóia. “Condensando o obscurantismo de três raças”, a pessoa do condutor de homens “cresceu tanto que se projetou na História”.

Líder místico católico, Antônio Conselheiro, acompanhado de seus beatos, vagueava pelo sertão numa vida de penitência, proferindo sermões e comandando a construção ou reconstrução de igrejas, cemitérios e açudes. Assim se passaram trinta anos, com o séquito sempre a aumentar.

Tentando elucidar a origem da Guerra de Canudos, Euclides mostra como o advento da República acarreta alterações que perturbam o ânimo dos conselheiristas: novos impostos, separação entre Igreja e Estado, liberdade de culto e instituição do casamento civil, que contradizia frontalmente um sacramento católico.

Repelidos em toda parte, os peregrinos acabaram por se refugiar, por volta do ano de 1893, nas ruínas de uma fazenda abandonada por nome Canudos, no fundo do sertão baiano. Edificam pouco a pouco seus barracos de pau-a-pique – futura “Tróia de taipa”, no oxímoro euclidiano.

Não há madeira no sertão, cuja cobertura vegetal típica é a caatinga, a qual não passa de um mato ralo, feito de garranchos, gravetos e cactos. Por isso, o povo de Canudos tinha comprado e pago, antecipadamente, em 1896, na cidade de Juazeiro, um lote de peças necessárias para as obras da Igreja Nova. Não tendo recebido a encomenda, foram buscá-la em procissão, cantando hinos religiosos e desarmados. Entrementes, as autoridades locais tinham convocado para recebê-los tropas estaduais as quais, emboscadas em Uauá, os dizimaram, mas bateram em retirada.

Nova ofensiva, mais numerosa e mais bem armada, deslancha novo ataque policial-militar em janeiro de 1897, que resulta igualmente em derrota.

A terceira expedição seria comandada pelo coronel Moreira César, que vinha de reprimir outra insurreição no Sul, quando se destacara pelo rigor da repressão que exercia e à qual devia o cognome de “Corta-pescoço”. O perigo que Canudos veio a representar,  após essas duas derrotas, já é agora considerado de alçada nacional e grave demais para ficar sob a responsabilidade de tropas estaduais. Monta-se uma grande ofensiva, com forças federais vindas de todo o país, armamento moderno incluindo canhões, e uma ampla campanha no sentido de excitar a opinião pública. Os ânimos estão exaltados, a demagogia patriótica espicaçada, e insinua-se que os incidentes do sertão apontam para uma tentativa de restauração monárquica.

Acompanhada pela atenção de todo o país, a terceira expedição se reúne em Salvador e marcha para Canudos. Chega a atacar o arraial, mas após algumas horas, sofrendo pesadas perdas, inclusive a de seu comandante, bate em retirada, debandando. Para facilitar a fuga arremessa longe armas e munições – que serão coletadas e entesouradas pelos canudenses – e até peças de farda, como dólmans ou botas.

Euclides mostra em cenas vívidas o que foi a celeuma provocada por mais esta derrota. Manifestações de rua nas duas principais cidades do país, Rio e São Paulo, acabaram se transformando em motins em que o furor da multidão se desencadeou sobre os alvos mais óbvios, ou seja, os poucos jornais monarquistas sobreviventes: quatro foram empastelados e o dono de um deles foi linchado. Todos clamavam pelo aniquilamento desta ameaça à novel República. Os estudantes assinaram uma petição exigindo a liquidação dos sequazes do “degenerado”. Deputados e senadores não discutiam outra coisa no Parlamento. Os jornais trataram a derrota como uma calamidade nacional, disseminando a insegurança e o alarme por toda parte, multiplicando notícias falsas, cartas forjadas e denúncia de focos conspiratórios até internacionais.

Prepara-se então uma quarta expedição, na qual novamente sobe a patente em comando, agora o general Artur Oscar de Andrade Guimarães, assistido por quatro outros generais. Um marechal viria a ser o chefe supremo, na pessoa do ministro da Guerra, Marechal Machado Bittencourt, que se deslocou para o teatro das operações com seu estado-maior e ali montou seu gabinete. As tropas são mobilizadas em todo o país. Foi integrado nesta expedição, na qualidade simultânea de repórter e adido ao estado maior do ministro da Guerra, que Euclides se tornou testemunha ocular da campanha, enviando para o jornal O Estado de S. Paulo a série de correspondências que levaria o título de Diário de uma expedição.

Da leitura dessas correspondências, depreende-se como Euclides se encaminhou para Canudos presa da mesma lavagem cerebral que as forças armadas e os demais jornalistas, tomados todos de entusiasmo republicano e de fervor sacrifical. Encontravam-se prontos a dar a vida pela República que tanto prezavam, não sem antes extirpar do mundo a ameaça monarquista. É ao longo do desenrolar das reportagens que o leitor pode entrever dúvidas incipientes a se insinuarem no espírito do escritor, que dá os primeiros sinais de desconfiar da propaganda maciça. Essas dúvidas serão depois intensamente elaboradas em Os sertões.

Arrancando em junho de 1897, a quarta expedição iria assediar o arraial, o qual é cercado para impedir socorros ou reforços. O alvo estratégico maior, todavia, era cercear o abastecimento de água, tão preciosa na caatinga seca e penosamente obtida pelos canudenses em cacimbas abertas no leito seco do Vaza-Barris, um uede, ou rio temporário, só cheio e correndo por ocasião de temporadas de fortes chuvas.

Graças ao desastre da terceira expedição, os canudenses se armaram. Se antes só dispunham de poucas e arcaicas peças de fogo, daquelas de carregar pela boca – arcabuzes, bacamartes e colubrinas – passaram a dispor do mais moderno armamento da época, abandonado pelas tropas em debandada. Dentre todos, os mais cobiçados eram os rifles de repetição Mannlicher austríacos e as carabinas Comblain belgas.

A poderosa arremetida de tantos recursos conjugados – abundância de homens, fartura de armas e munições, concurso de muitos canhões – implanta o assédio que vai constringindo o arraial, do qual alguns setores são aos poucos ocupados. A resistência inquebrantável dos canudenses desafia a compreensão e se constitui em enigma. Alguns dias antes do final parlamenta-se uma rendição, negociada por Antônio Beatinho. Para consternação dos atacantes, entregam-se cerca de trezentas mulheres, reduzidas pela penúria à condição de esqueletos, acompanhadas pelas crianças e por alguns velhos. Após o que a resistência recrudesce, com mais ânimo agora porque desvencilhada de um peso morto. E, castigando o arraial por intenso bombardeio durante vários dias, procedeu-se à utilização pioneira de uma espécie de napalm improvisado, gasolina espalhada sobre as casas ainda habitadas sendo incendiada mediante o lançamento de bastões de dinamite. O arraial se calou, sem se render, a 5 de outubro de 1897. Os últimos resistentes, calcinados numa cova no largo das igrejas, não eram mais que quatro, dos quais dois homens, um velho e um menino. Sempre lembrado, esse final inglório tornou-se representativo daquela que foi uma guerra de extermínio contra uma população indefesa.

O cadáver de Antônio Conselheiro, que morrera de doença no dia 22 de setembro, pouco antes do final, foi exumado. Sua cabeça foi cortada e levada para a Faculdade de Medicina da Bahia para ser autopsiada, com a intenção de descobrir-se a origem de seus descaminhos, o que, segundo rezavam as teorias lombrosianas então em vigor, podia ser inferido a partir das dimensões do crânio e da dissecação do cérebro. Entretanto, o laudo oficial furtou-se a apresentar alguma conclusão definitiva, adensando o mistério, para desapontamento de quantos queriam responsabilizar algo palpável, como a anatomia do líder.

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A Guerra de Canudos, como vimos, acabou por se revelar ingloriamente como uma chacina de pobres-diabos. Tornou-se evidente que não houvera conspiração alguma e que este bando de sertanejos miseráveis não tinha qualquer ligação com os monarquistas instituídos – gente branca, urbana e de outra classe social, com horror a “jagunços” e “fanáticos”, os quais não passavam de mestiços pobres como os canudenses –, nem qualquer apoio logístico, seja no país, seja no exterior.

A reviravolta resultante foi notável: a opinião mudou de lado e passou a lamentar o massacre de valentes compatriotas numa luta fratricida. Ademais, deixou de ser segredo que a conduta do exército estivera longe de ser irreprochável. Alguns escassos correspondentes de guerra já haviam revelado a degola em público dos prisioneiros indefesos, prática sancionada por todos, inclusive pelos comandantes.

Com a Guerra de Canudos completa-se o processo de consolidação do regime republicano. Graças a ela, exorcizou-se o espectro de uma eventual restauração monárquica. Posteriormente, tendo à vista os testemunhos, pode-se dizer que a opinião pública foi manipulada e que os canudenses serviram de bode expiatório nesse processo. Eles desempenharam involuntariamente o papel de adversário comum a todos, aquele que se enfrenta coletivamente e que permite forjar a união nacional. À falta de um inimigo externo, capaz de provocar a coesão do corpo social e político, infalível em caso de guerra internacional, suscitou-se um inimigo interno, com invulgar eficácia.

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Euclides escrevera dois artigos com o mesmo título de “A nossa Vendéia”, estampados em O Estado de S. Paulo – periódico com que colaborava habitualmente desde o ano anterior à proclamação da República, quando fora expulso da Escola Militar por insubordinação – em março e julho de 1897, o primeiro provocado pelo desastre da terceira expedição e o segundo pela arrancada da quarta. Assim se tornou um candidato natural a correspondente. Além de mostrar-se enfronhado no assunto, já expendendo opiniões sobre a natureza do sertão e da campanha, criaria com o título uma expressão que marcou época e que foi repetida por todos. Ele mesmo a renegaria mais tarde, depois de ter passado tempos a afirmar que o livro que se destinava a escrever repetiria o título. A felicidade da fórmula era um modelo de concentração ideológica. Num conciso sintagma de três termos, transpunha para o coração do Brasil a revolta monarquista católica coligando campesinato e nobreza (1893) em reação contra a Revolução Francesa, democrática, laica e republicana. Mas, quando o livro saiu, ele já sabia que a fórmula, embora feliz, era tendenciosa, e deturpava o caráter do que ocorrera. Por isso, desistiu de empregá-la novamente.

Indicado por O Estado de S. Paulo, Euclides acumularia ainda o cargo de adido ao Estado-maior do Ministro da Guerra, que obteria mediante pedido de Júlio Mesquita, diretor do jornal, ao presidente da República, Prudente de Morais.

As reportagens, começando já a bordo do navio Espírito Santo, que conduzia tropas no percurso Rio–Bahia, impressionam por serem tão bem escritas, quando se sabe que as condições materiais de trabalho eram penosas, e piorariam a partir da capital. Escreveria ao balanço do trem, em lombo de montaria ou, literalmente, no joelho, enquanto vivia em barracas no acampamento militar, sob o troar da metralha. Já em Salvador fora tocado pelo testemunho de um jagunço de catorze anos, feito prisioneiro. Este negara o que os interrogadores sugeriam, que o Conselheiro fazia milagres e que garantia a ressurreição dos mortos em combate. Indagado, então, quanto ao que o Conselheiro prometia como recompensa aos canudenses que arriscavam a vida, respondera: “Salvar a alma.” Surpreendido, Euclides observa: “...não mentem, não sofismam e não iludem, naquela idade, as almas ingênuas dos rudes filhos do sertão.”

Esse é o primeiro sinal de que a inteligência de Euclides está prestes a captar algum engano no ar. Penetrando no sertão e chegando até Canudos, o escritor vai gradativamente intensificando esses sinais, e mitigando o entusiasmo patriótico que no início demonstrara, sem todavia perdê-lo de vez. Desviando-se dos demais repórteres, fará reflexões sobre o cunho equivocado da acolhida a bala dada aos canudenses, quanto outro tipo de tratamento mais civilizado poderia resolver os problemas. E dali a um palmo está o surgimento da admiração que por eles passa a manifestar.

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Cinco anos, ou um pouco menos computando os trâmites editoriais, foram necessários para a verdadeira metamorfose que vai das reportagens a Os sertões: cinco anos e uma grande ambição. A massa de informações científicas e históricas acumuladas no livro aponta para o risco da dispersão. Mas, ali reunidas, ganham uma certa unificação, que lhes é conferida pelo estilo naturalista, então predominante na literatura brasileira, junto com um tratamento parnasiano da paisagem. A mescla de descrição impessoal com preocupação genética, à maneira do Naturalismo, é posta aqui a serviço da crônica de uma guerra. E a guerra, como se sabe, é literariamente a figuração do drama, ou confronto entre duas pessoas, duas famílias, duas equipes, dois partidos, dois povos, e assim por diante.

Entretanto, o que se observa é que a formação da terra na primeira parte e a do homem na segunda parte já são igualmente tratadas como um drama. No que concerne à terra, os seres da natureza, antropomorfizados, são dotados de sentimentos ou mesmo de desígnios. No caso do homem, o tema central é o confronto feroz de três raças em disputa de hegemonia. Todavia, como amiúde ocorre nas obras naturalistas, as idéias e as teorias são a cada passo postas em relevo, adquirindo voz própria. O determinismo, o cientificismo, o evolucionismo, a noção de linearidade do progresso tido como inelutável, as preocupações ligadas aos fatores hereditários, tudo isso tem freqüentemente voz ativa na narrativa. Disso resultando o caráter polifônico do livro em seu conjunto.

O modo como essa polifonia se realiza decorre da intertextualidade. Ao longo do livro, e é o que lhe dá seu sopro enciclopédico, textos e autores são incessantemente citados e submetidos a discussão. Na parte sobre “A luta” o autor recorre não somente a suas próprias reportagens e cadernetas de campo, mas também às reportagens dos outros correspondentes, às ordens do dia do exército, aos relatórios de governo. No capítulo inicial, “A terra”, são mobilizados textos e autores de geologia, de meteorologia, de botânica, de zoologia, de física, de química. Em “O homem”, o autor, ao passar em revista textos de história da colonização, de folclore, de psiquiatria, de neurologia, de sociologia, de etnologia, embrenha-se por conjecturas que tornam essa a parte mais polêmica do livro.

A dificuldade em lidar com uma tal avalanche de saberes é patente, e se resolve em paráfrases discordantes que se sucedem. Na impossibilidade de realizar uma síntese, ou mesmo sínteses parciais, o texto avança jogando com todo tipo de antíteses, antinomias e contradições. Estas podem tomar o aspecto de uma figura freqüentemente privilegiada, o oxímoro, isto é, uma aproximação violenta de contrários: “Tróia de taipa” para definir o arraial, “Hércules-Quasímodo” para definir o sertanejo.

A complexa questão da composição de Os sertões segue em geral essas linhas. E a maneira como o texto a enfrenta está à altura dessa complexidade, pondo em jogo recursos nada simplistas ou lineares como a polifonia e a intertextualidade. Para amarrar a matéria, Euclides tomou ainda emprestada dos canudenses, milenaristas e messianistas, que ali se concentraram na Terra Prometida que escolheram para esperar o Juízo Final anunciado pelo fim do século, numa vida de oração para salvar suas almas, a visão escatológica. E mostra como, ao operar uma inversão demoníaca das imagens bíblicas que presidem ao mito salvacionista, é possível vislumbrar o ponto de vista deles. O Belo Monte – como rebatizaram o arraial – ou Nova Jerusalém, tinha se transformado no seu oposto, o inferno. O rio da Cidade de Deus, o rio da vida eterna, se presentifica no leito sem água do Vaza-Barris. As muralhas de ouro garantidas pelas Escrituras, que aguardam os justos, não passam de edificações de pau-a-pique. A vegetação luxuriante do jardim de delícias pelo qual anseiam se degrada na caatinga seca e desnuda. E assim por diante. Seu mundo tinha se desencantado.

Por isso, o grande sintagma narrativo de Os sertões – começando pelo Gênesis telúrico e terminando pelo Juízo Final contido no Apocalipse, simbolizado pelo aniquilamento de Canudos pelo fogo – haure sua inspiração visionária na mimese do paradigma bíblico.

Bibliografia
Cunha, Euclides da. Os sertões. Edição Crítica de Walnice Nogueira Galvão. São Paulo: Ática, 1996, 2ª ed.

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____. “Ciclo de Os sertões”, em Gatos de outro saco. São Paulo: Brasiliense, 1981.

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____ (org.). Introduçäo e notas a Euclides da Cunha. Coord. Florestan Fernandes, Col. Grandes Cientistas Sociais, no 45. São Paulo: Ática, 1984.

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____. “Euclides da Cunha”, in Ana Pizarro (org.), América Latina – Palavra, literatura e cultura, Vol. 2. Campinas: Unicamp, 1994.

____. Correspondência de Euclides da Cunha (c/ Oswaldo Galotti). São Paulo: EdUSP, 1997.

____. “Remendando 1897”, Desconversa. Rio de Janeiro: EdUFRJ, São Paulo: Edusp, 1998.

____ (org.) Euclides da Cunha, Diário de uma expedição. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.

Conferência proferida na Academia Brasileira de Letras, durante o ciclo Centenário da publicação de “Os sertões”, no dia 3 de julho de 2001.

 
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