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Os artigos publicados no O Estado de S. Paulo
Depois de publicar no Estado de S. Paulo, em 14 de março de 1897 o artigo intitulado "A Nossa Vendéia", Euclides da Cunha foi designado como correspondente desse periódico no sertão baiano.

Relação dos artigos enviados pelo escritor e publicados no Estado de S. Paulo, no período de julho a outubro de 1897:

26 de Setembro de 1897 (Publicado em 13 de outubro de 1897)
 

Os jagunços encurralados na igreja nova e no santuário anexo, desde às 10 horas da noite de ontem, até o momento em que escrevo (10 1/4 da manhã) atiram desordenadamente numa fuzilaria continua, frouxa às vezes, recrudescendo repentinamente outras. Não apontam mais, atiram ao acaso, para todas as direções, desesperadamente. É um vulcão numa erupção de balas aquele templo maldito.

O espectáculo de Canudos, presa das chamas que lavram em diferentes pontos é extraordinário; a fumarada - enuovelada e pardacenta - alevanta-se e descorola-se e espalha-se por sobre os telhados, encobrindo a maior parte das casas e mal deixando perceber as bandeirolas vermelhas - pontos determinantes da linha do cerco - alevantados agora em torno do último baluarte dos rebeldes. E os tiros partem deste, constantes, multiplicados, inúmeros, num desperdiçar de munições capaz de exaurir o arsenal mais rico. São balas que sibilam em todos tons desde o resoar áspero e roufenho das Comblains á zoada lúgubre dos projéteis grosseiros dos bacamartes, ao assovio suave quase e delicadíssimo da Manulicher, vergastando os ares.

Os canhões cuidadosamente conteirados para não atingirem aos sitiantes próximos, atiram granadas e aberapnells certeiros no antro formidável; - e a fuzilaria não cessa e cada bala que ali cabe parece estimular a insânia dos fanáticos.

Tem a mais sólida, a mais robusta têmpera essa gente indomável! Os prisioneiros feitos revelam-na de uma maneira expressiva.

Ainda não consegui lobrigar a mais breve sombra de desânimo em seus rostos, onde se desenham privações do toda a sorte, a miséria mais funda; não tremem, não se acobardam e não negam as crenças mentidas pelo evangelisador fatal e sinistro que os arrastou a uma desgraça incalculável.

Mulheres aprisionadas na ocasião em que os maridos caíam mortos na refrega e a prole espavorida desaparecia na fuga, aqui têm chegado - numa transição brusca do lar mais ou menos feliz para uma praça de guerra, perdendo tudo numa hora - e não lhes diviso no olhar o mais leve espanto e em algumas mesmo o rosto bronzeado de linhas firmes é iluminado por um olhar de altivez estranha e quase ameaçadora. Uma delas acaba de ser conduzida à presença do general. Estatura pequena, rosto trigueiro, cabelos em desalinho, lábios finos e brancos, rugados aos cantos por um riso doloroso, olhos vesgos, cintilantes; trás ao peito, posta na abertura da camisa, a mão direita, ferida por um golpe de sabre.

- Onde está teu marido?

- No céu.

- Que queres dizer com isto?

- Meu marido morreu.

E o olhar correu rápido o fulgurante sobre os circunstantes sem se fitar em ninguém.

O chefe da comissão de engenharia julgou conveniente fazer-lhe algumas perguntas acerca do número de habitantes e condições da vida, em Canudos.

- Há muita gente aí, em Canudos?

- E eu sei? ... eu não vivo navegando na casa dos outros. Está com muitos dias que ninguém sabe por via das peças. E eu sei contar? Só conto até quarenta e rola o tempo p'ra contar a gente de Belo Monte...

- O Conselheiro tem recebido algum auxílio de fora, munições, armas?...

- E eu sei? Mas porém em Belo Monte não manca (1) arma nem gente p´ra brigar.

- Onde estava seu marido quando foi morto?

Esta pergunta foi feita por mim e em má hora a fiz. Fulminou-me com o olhar.

- E eu sei? Então querem saber de tudo, do miúdo e do grande. Que extremos!...

E uma ironia formidável, refletida nos lábios secos que ainda mais so rugaram num sorriso indefinível, sublinhou esta frase altiva, incisiva, dominadora como uma repreensão.

- Onde está Vila-Nova?

- Abancou para o Caipan.

- E Pajehú?

- É de hoje que ele foi p'ro céu?

- Tem morrido muita gente aí?

- E eu sei?...

Este e eu sei? É o inicio obrigado das respostas de todos; surge espontâneamente, infalívelmente, numa toada monótona, encimando todos os períodos, cortando persistentemente todas as frases.

- Fugiram muitos jagunços hoje, no combate?

- E eu sei? meu marido foi morto por um lote de soldados quando saía; o mesmo tiro quebrou o braço do meu filho de colo... Fiquei estatalada, não vi nada... este sangue aqui na minha manga é do meu filho, o que eu queria era ficar lá também, morta...

(1) Mancar - faltar (manquer) - É singular este galicismo no sertão.

* * * * *

E assim vão torcendo e evitando a todas as perguntas, fugindo vitoriosamente ao interrogatório mais habilmente feito. E que as interrogativas assediem-nos demais, inflexivelmente, quando não é mais possível tergiversar lá surge o infalível - e eu sei? Tradução bizarra de todas as negativas, eufemismo interessante substituindo o não claro, positivo.

São cinco horas da tarde. Os jagunços continuam inamalgáveis, na resistência. Tivemos ontem cerca de cinquenta baixas e as de hoje não serão talvez menores. Feleceu heroicamente, quando tomava posição perto das igrejas, o capitão Cordeiro, do batalhão paraense, na mesma ocasião quase em que era ferido o coronel Sotero de Menezes, comandante do mesmo batalhão. Acaba de ser ferido por um tiro de bacamarte o major José Pedro, do batalhão paulista, no braço esquerdo, no peito e na cabeça, sem gravidade. O sargento do 5º de artilheria Francisco de Mello - o mesmo que há menos de um mez, num belo lance de bravura, foi só à igreja nova lançar uma bomba de dinamite - acaba também de ser ferido. E os estragos vão-se assim acumulando no final mesmo da luta, e pode-se avaliar o que foi ela no princípio quando o inimigo se revestia da força moral da vitória.

Onze horas da noite. A partir das 6 horas da tarde recrudesceu a fuzilaria que ainda perdura e, certo, continuará por toda a noite. Ela faz-se numa intermitência sucessiva de tiros numerosos, multiplicados como uma explosão os períodos mais calmos de fogo lento, como retic~encias passageiras no tumulto ruidoso do tiroteio.

Olho neste instante, cautelosamente, por uma fresta da trincheira para a igreja...

É uma cratera fulgurante. Assombra...

Não é possivel que a munição de guerra daquela gente seja só devida à deixada pelas expedições anteriores. A nossa esgota-se todos os dias; todos os dias entram comboios carregados e, no entanto, já nos falta, as vezes.

Como explicar essa prodigalidade enorme dos jagunços?

Não nos iludamos. Há em toda esta luta uma feição misteriosa que deve ser desvendada.

Meia noite. Mal posso, á luz mal encoberta de um fósforo, observar a temperatura e a pressão no meu aneroíde, a fuzilaria continúa tenaz do lado a lado.

Já se não distinguem os tiros - ouve-se um ressoar imenso lembrando o de muitas represas bruscamente abertas.

Os jagunços lutam agora pela vida, no sentido mais estrito da frase. Lavra entre eles a sede e as cacimbas ali estão, a poucos metros apenas, em nosso poder.

Mas não vacilam, não recuam, não se entregam, e atiram atiram sempre dentro de um círculo de fogo formado, pelas armas vivamente disparadas de seus batalhões.

A igreja sinistra avulta nas trevas, dominadora, formidável. Reflue sobre ela o relampaguear do tiroteio e a essa claridade indistinta e rubra creio distinguir, deslisando no alto dos muros estruídos, engrimponados alguns, nos restos desmantelados das tôrres derrocadas, os nossos rudes patrícios transviados.

 
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