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Os artigos publicados no O Estado de S. Paulo
Depois de publicar no Estado de S. Paulo, em 14 de março de 1897 o artigo intitulado "A Nossa Vendéia", Euclides da Cunha foi designado como correspondente desse periódico no sertão baiano.

Relação dos artigos enviados pelo escritor e publicados no Estado de S. Paulo, no período de julho a outubro de 1897:

24 de Setembro de 1897 (Publicada em 12 de outubro de 1897)
 

Completo ontem o cerco de Canudos, a luta correrá vertiginosamente agora. Os sucessos de hoje o indicam.

Desde muito cedo a direita da nossa linha avançou estreitando o sítio e estabelecendo com o inimigo um combate que irá num crescendo inevitável. travaram-se combates parciais, peito a peito, dentro das casas mais próximas, rapidamente cercadas. À audacia indômita do jagunço contrapõe-se neste momento a bravura inegável do soldado.

Escrevo rapidamente estas linhas, no meio do tumulto quase, emquanto a fuzilaria intensa suleia os ares a cem metros de distância.

Acabam de chegar alguns prisioneiros.

O primeiro é um ente sinistro ; um estilhaço de granada transformou-lhe o olho esquerdo numa chaga hedionda, de onde goteja um sangue enegrecido; baixo e de compleição robusta, responde tortuosamente a todas as perguntas:

Está apenas há um mês em Bello Monte e nada tem com a luta; nunca deu um tiro porque tem o coração mole (1) etc. Nada revela.

Chegam mais duas prisioneiras, mãe e filha; a primeira esquelética e esquálida - repugnante, a segunda mais forte e de feições atraentes. Evitam igualmente tanto quanto possível responder ao interrogatório do general. A filha apenas revela:

- Villa-Nova esta noite lascou o pé no caminho (2) e há um lote de dias 93) que um despotismo de gente (4) tem abancado (5) para o curube o Caipan. Está com muitos dias que há fome em Belo Monte.

A velha nada sabe, evita todas as respostas e nada pode dizer sobre o número de inimigos porque só sabe contar até quarenta!

Morreu-lhe o marido há meia hora; era um baiano truculento; expirou atravessado pelas balas, cinco minutos depois de haver morto com um tiro de bacamarto ao alferfes do 24º Pedro Simões Pontes e murmurou com um sorriso sinistro ao expirar:

- Estou contente! Ao menos matei um! Viva o Bom Jesus!

São duas horas da tarde e já temos 13 baixas.

Chega mais um jagunço preso.

Deve ter sessenta annos - talvez tenha trinta; vem meio desmaiado: no peito desenha-se, rubra, a lâmina de uma espada, impressa por uma pranchada violenta. Não pode falar, não anda.

Mais outro: é um cádaver claudicante. Foi ferido ha dois meses pela explosão de um schrapnell quando se acolhia ao santuário. Uma das balas atravessou-lhe o braço e a outra o ventre. E este ente assim vive, há dois meses, numa inanição lenta, com dois furos no ventre, num extravasamento constante dos intestinos. A voz sai-lhe da garganta imperceptível quase. Não pode ser interrogado, não viverá talvez até amanhã.

No colo de um soldado do 5º chega um outro,- tem seis meses.

Foi encontrado abandonado numa casa. e o pobre engeitado passa, indiferente ao tumulto, acobertado pela própria inconsciência da vida. Depois uma velha com a feição típica de raposa assustada.

E mais outros. Creio que entramos no período agudo da luta que talvez não dure oito dias. Está fechado o circulo do ferro em torno de Canudos.

(1) Medroso.
(2) Fugiu.
(3) Muitos dias.
(4) Muita gente.
(5) Saido.

 
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