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Os artigos publicados no O Estado de S. Paulo
Depois de publicar no Estado de S. Paulo, em 14 de março de 1897 o artigo intitulado "A Nossa Vendéia", Euclides da Cunha foi designado como correspondente desse periódico no sertão baiano.

Relação dos artigos enviados pelo escritor e publicados no Estado de S. Paulo, no período de julho a outubro de 1897:

18 de Agosto de 1897 (publicado 25 de agosto de 1897)
 

Um Episódio da Luta

Em dias de junho ultimo um dos filhos de Macumbira, adolescente de quinze anos abeirou-se do rude chefe sertanejo:

- Pai, quero destruir a matadeira. (Sob tal denominação indicam os jagunços o canhão Krupp, 32, que tem feito entre eles estragos consideráveis).

O sinistro cabecilha, espécie grosseira de Imanus acobreado e bronco, fitou-o impassível:

- Consulta o Conselheiro - e vai.

E o rapaz seguiu acompanhado de onze companheiros atrevidos.

Atravessaram o Vasa-Barris seco e fracionado em cacimbas, investiram contra a primeira encosta à margem direita, embrenharam-se, num deslisar macio e silencioso de icobras, pelas catingas próximas.

Já era meio o dia.

O sol, num firmamento sem nuvens, dardejava a pino sobre os largos taboleiros, lançando sem fazer sombria, até ao fundo das quebradas mais fundas, os raios verticais, ardentes.

Naquelas paragens longínquas e ingratas o meio dia é mais silencioso e lúgubre do que as mais tardias horas da noite. Reverberando nas rochas expostas, largamente refletido nas chapadas desnudadas, sem vegetação ou absorvidas por um solo seco e áspero de grez, os raios solares aumentam de ardor, e o calor emitido para a terra reflui para o espaço nas calunas ascendentes do ardilatado, morno, irrespirável quase.

A natureza queda-se silenciosa num aniquilamento absolutor, não sulca a viração mais leve os ares, com transparência perto do solo se perturba em ondulações rápidas, candentes; repousa dormitando a fauna resistentes das catingas; murcham as folhas, nas árvores crestadas.

O exército repousava esmagado pela canícula.

Deitados e esparsos pelas encostas, bonés postos aos rostos para resguardál-os dormitando, ou pensando nos lares distantes os soldados aproveitavam alguns momentos de tréguas, restabelecendo forças para a afianosa líde.

Em frente, enorme, derramanda sem ordem sobre a larga encosta em que se erige, com as suas exiguas habitações desordenadamente espalhadas, sem ruas e sem praças, acervo incoerente de casas, aparecia Canudos, deserta e muda, como uma tapera imensa, abandonada.

Circunvalhando-a, em parte, como um fosso irregular e fundo, o Vasa-Barris prolonga-se à direita, sinuoso, desapareccendo, longe, entre as gargantas abrutas de Cocorobó. No fundo, fechando o horizonte, desdobrava a lombada extensa da serra da Canna-brava...

O exército repousava... Nisto despontam, emergindo cautos, à borda do moto rasteiro e trançado de árvores baixas a esgalhadas, na clareira em que estaciona a artilheria, doze postas espantados - olhares rupidos a erscrutando todos os pontos, - doze rostos apenas de homens ainda mergulhados, de rastos, no seio trançado das macambiras.

E surgem lentamente; ninguem os vê; ninguem os pode ver; - dá lhes na costas, numa indiferença soberana, o exército que repousa.

Em frente, a cinquenta metros apenas eles divisam o objetivo da empresa.

Como um animal fantástico e monstruoso, o canhão Krupp, a matadeira assoma sobre o reparo resistente, voltada para Belo Monte a boca truculenta e flamivorna - ali - sobre a cidade sagrada, sobre as igrejas, prestes a rugir golpeando as granadas formidáveis - silenciosa agora, isolada e imóvel - brilhante o dorso luzidio e escuro, onde os raios do sol caem, refletem, dispersam-se em cintilações ofuscantes.

Os fanáticos audazes aprumam-se à borda da clareira e arrojam-se impávidos sobre a peça odiada.

Vingam a distância do salto e circumdam o monstro de aço, silenciosos, terríveis - resfolegando surdamente.

Um dos mais robustos trás uma alavanca pesada; - ergue-a e a pancada desce violentamente, retinindo.

E um brado de alarma altíssimo é viral, partindo bruscamente o silêncio universal das coisas, multiplicando-se nas quebradas, enchendo o espaço todo, desdobrando em écos que ascendem de todos os vales, refluem rapidos nas montanhas, um brado de alarma alteia-se, numa vibração triunfal, estrugidor e imenso.

Formam-se rapidamente os batalhões; num momento os atacantes ousados vêm-se, presos, num círculo intransponível de baionetas e caem sob os golpes e sob as balas.

Um apenas se salva, golpeado, baleando, saltando, correndo, rolando, intangível entre os soldados, atravessando, uma rêde de balas, vingando os pontos das baionetas, caindo em cheio nas catingas que atravessa velozmente e despenhando-se, livre afinal, alcandorado sobre abismos, pelos pendores aprumados da montanha...

Estas e outras histórias, contam-nas, aqui, os soldados, colaboradores inconscientes das lendas que envolverão mais tarde esta campanha crudelíssima.

 
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