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Depoimento do acadêmico Alberto da Costa e Silva
 

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Depoimento do acadêmico Alberto da Costa e Silva
Gravado em 03/11/2003

Quem primeiro me fez ler Os sertões com seriedade foi um professor que tive no liceu, o grande lingüista Herbert Parentes Fortes.

Os seus quase cinqüenta anos e as desilusões políticas não lhe abrandaram, em nenhum momento, o entusiasmo. Era um exaltado, como mostravam os seus olhos. E derramava-se em paixão, ao falar de Camões, de Gil Vicente, do Padre Antônio Vieira e, sobretudo, de Euclides da Cunha.

- Comece pela primeira linha - disse-me. Pois o livro parte da terra para o homem e do homem para as suas desventuras. E esqueça o que na obra se quer ciência. Fique com a poesia. Isto é, com a verdade do instante. Ao contrário das intuições da poesia, que valem para sempre, dizia-me Herbert Parentes Fortes, a ciência envelhece. Envelheceu em Euclides da Cunha, como envelheceu e prejudicou Nina Rodrigues. Pois ambos seguiram as doutrinas do racismo europeu. E, por sinal, perguntou-me ele, você já leu Os africanos no Brasil? Não pode deixar de fazê-lo.

Durante alguns meses, convivi com Os Sertões. E com À margem da História e com Contrastes e confrontos. Contagiei-me de revolta e piedade diante da ignomínia de Canudos. Mas, se Euclides me seduziu pela originalidade do estilo, o que nele me assombrou foi o como trazia para a página escrita, em uma dúzia de frases (ou menos que isto), a essência de um rosto e de um corpo em movimento. O próprio cinema não seria capaz de apresentar com tamanho realismo - ou, mais que realismo, verdade - a cena da chegada a Assunção do Paraguai de Artigas; ou a da recuperação do orgulho de ser homem, e um homem em guerra, daquele seguidor negro de Antônio Conselheiro, a caminho da degola; ou, ainda, a do menino de nove anos a desmontar e montar a carabina. Tinha dúvidas - e continuo a tê-las - de que se pudesse, num filme, manter a tensão nervosa com que Euclides nos punha entre os soldados que iam conquistando, casa a casa e morto a morto, o arraial de Canudos. Talvez Goya - o Goya, que eu então só conhecia em reproduções dos “Fuzilamentos de 3 de Maio” e de algumas gravuras - talvez Goya lograsse a contundência daquele parágrafo de poucas linhas, em que o garoto franzino, com um quepe enterrado até os ombros, levanta de súbito a cabeça, para olhar os que dele riam, e mostra o buraco da boca levada por um tiro.

Eu discordava de Euclides, e ainda discordo, quando este chamava retardatários aos habitantes do sertão profundo. Para mim - e tinha aqui o cinema ou, para ser mais preciso, o filme de mocinho, o western, como o meu padrão, para mim eram eles os nossos pioneiros, pioneiros muito mais antigos do que os norte-americanos, pioneiros que tinham ficado, desde o século XVIII, isolados nas lonjuras das lonjuras, sem diligências ou trens de ferro, sem cabarés, telégrafo e comércio pelo correio, isolados e esquecidos por todos nós, que não tivemos a coragem de segui-los.

Havia quem dissesse ser necessário tirar dois de cada três de seus adjetivos, para fazer de Euclides um escritor perfeito. Eu discordava dessa opinião, e ainda discordo. Os adjetivos em Euclides, como em Vieira, fazem parte da orquestração da prosa. Não escrevia ele para violão, como Antônio de Alcântara Machado, nem para piano, como Ciro dos Anjos, nem tampouco para o quarteto de cordas, como Machado de Assis. Os sertões combinavam mais - isto pensei muito depois - com as sinfonias de seu contemporâneo Gustav Mahler.

Para melhor compreender Euclides, muito me vali dos trabalhos de Afrânio Peixoto (especialmente os textos que figuram em Poeira da estrada) e de Francisco Venancio Filho, fidelíssimo em sua admiração. Os estudos de Afrânio eram meus velhos conhecidos; para os de Venancio Filho, chamou-me a atenção Herbert Parentes Fortes. Bem como para o paradoxo de nascerem da infâmia grandes obras de arte.

- Até nisto, bradava Herbert Parente Fortes, Os sertões repetem a Ilíada.

 
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