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Os artigos publicados no O Estado de S. Paulo
Depois de publicar no Estado de S. Paulo, em 14 de março de 1897 o artigo intitulado "A Nossa Vendéia", Euclides da Cunha foi designado como correspondente desse periódico no sertão baiano.

Relação dos artigos enviados pelo escritor e publicados no Estado de S. Paulo, no período de julho a outubro de 1897:

16 de Agosto de 1897 (Publicado em 25 agosto de 1897)
 

Ao chegar aqui e assaltado logo por impressões novas e variadas, perturbadoras de um juízo seguro, acredito, ás vezes, que avaliei imperfeitamente a situação e dominado talvez pela opinião geral entre os que voltavam de Canudos disse também com eles:

- Está quase terminada a luta e não fará mais vítimas.

Homens da maior respeitabilidade, que por excusado me pernoito não citar, afirmaram-me categóricamente, convitos, que na povoação sitiada não existiam, talvez, duzentos rebeldes, diminuidos além disto cotidianamente pela fuga todas as noites, através da estrada franca do Cambaio e pelos estragos de um bombardeio persistente. Outras testemunhas de vista garantiram, contestes, que nos combates subsequentes à grande batalha de 18 de julho, foram vistos, os jagunços, desmoralisados e acobardados, a ponto de pelejarem entre dois adversários - os soldados pela frente e os chefes pela retaguarda levando-os, tangidos a bastonadas, ao combate não desejado.

Há muitas testemunhas oculares deste fato, definidor do máximo desânimo entre os fanáticos.

Por outro lado, prisioneiros de ambos os sexos, concordam em afirmar um fato que patenteia um começo de discordia: o Conselheiro quis ceder rendendo-se e foi tenazmente impedido por Villa-Nova, espécie de chefe temporal da grei rebelada.

- Fica; faze os teus milagres! foi a intimativa enérgica e dominadora do cabecilha. E o profeta claudicante que garantira que as tropas do governo do Diabo desta vez não veriam sequer as torres sagradas das igrejas de Bello Monte (Canudos), quebrado o primitivo encanto, cedeu.

Além de tudo isto, a miséria a mais profunda e a fome refletidas nos corpos quase inanidos, carcassas quase vazias dos prisioneiros feitos - e dos mortos cuja estranha magreza é a nota constante das narrativas que fazem os soldados - iam, certo, lentamente, completando a destruição.

As estradas inteiramente francas e praticáveis, livres das emboscadas primitivas, atravessadas calmamente pelos que aqui tem chegado, indicam que a região em torno está de todo expurgada de inimigos.

Ora todas essas versões já são velhas nesta quadra tormentosa em que uma hora tem num valor imenso; já têm quinze dias.

Há quinze dias que se aguarda a todos os minutos a rendição do arraial, já ocupado, em parte, pelas nossas forças e tendo apenas duzentos inimigos combatidos pelas fadigas e pela fome; acindidos pela discórdia e desalentados a ponto de irem para a batalha - a pão ...

É só considerarmos que eles sabem dos reforços que seguem e dos que hoje, neste momento, devem estar chegando a Canudos, para completar o cerco, trancando-lhe definitivamente a única estrada livre - e da qual não se aproveitam, em tempo, fugindo á morte inevitável, - somos irresistivelmente levados a considerar a campanha, em vez de próxima ao seu termo, sob a sua feição primitiva, incompreensível, misteriosa.

Ela tem-no sido desde o começo; desde o princípio que os desastres sobrevêm - surpreendendo a toda a gente, inesperadamente, caindo de chofre no momento em que se espera a vitória e se anticipam ovações triumfais.

Por que razão os jagunços, desmoralisados, em numero reduzido, tendo ainda franca a fuga para o sertão indefinido e impervio onde não há descobrí-los, no seio de uma natureza que é a sua melhor arma de guerra - esperam que lhe fechem a única estrada para a salvação, aguardam que se complete o sítio do qual resultarão a rendição e todas as suas funestas consequências?

Afastada a hipótese de um devotamento sobrehumano que lhes imponha o sucumbir são os muros desmantelados dos templos que alevantaram - quase que se é irresistivelmente inclinado a pensar numa nova cilada caindo ex-abruto, baralhando mais uma vez os planos da campanha.

Do mesmo modo que as nossas tropas anceiam por novas reforços que chegam, não esperarão eles, acaso, dos sertões desconhecidos que se desdobram ao norte e noroeste de Canudos, fortes contingentes que ponham a nossa gente entre dois fogos?

Não será também lícito conjecturar, afastada esta suposição, que o número relativamente pequeno dos que permanecerem no arraial, arrostando todos os perigos, tenha como objetivo atrair exclusivamente para ali o exército e ali demorá-lo, iludido durante algum tempo, até que se revigorem os fanáticos e se reunam e se reforçam em outro qualquer ponto de mais difícil acesso, mais profundamente incravado no sertão?

Estas interrogativas avultam em meu espirito desde o dia em que procurando tirar uma média das opiniões que aqui circulam não o consegui e compreendi que grande parte dos que voltam daquelas paragens, desconhecem a situação tanto quanto os que lá não foram.

Acresce mais que se ainda ontem, unanimea, oficiais distintíssimos afirmavam-me que a povoação estava quase que toda abandonado e destruída - hoje distintíssimos oficiais, recém-vindos, cujos nomes poderei citar, afirmam que ela ainda tem muita gente, perfeitamente municiada e apta para longa e tensas resistência.

Procurar-se a verdade neste torvelinho é impôr-se a tarefa estéril e fatigante de Sísifo.

O espírito mais robusto e disciplinado esgota-se em conjecturas vãs nada deduz - oscila indefinidamente , intermitentemente, num agitar inútil de dúvidas, entre conclusões opostas, do desânimo completo à esperança mais alta.

Os próprios soldados, rudes homens sinceros, despenados das paixões que enlaçam os que atuam num piano superior da vida, não acordam muitas vezes no que afirmam. Muitos lá estiveram desde as primeiras expedições e confessam ingenuamente, lealmente, que nada sabem, nunca viram o inimigo senão depois de morto, nunca o viram frente a frente, braço a braço, na refrega do combate, não o conhecem absolutamente, não sabem quantos existem.

Como se tudo isto não bastasse para impressionar vivamente e fazer vacilar o espírito mais enérgico, aí estão estas irrupções diárias, cuja descrição tenho feito sem exagero, de feridos, cujo número assombra - chegando invariávelmente todos os dias, enchendo inteiramente todos os hospitais e transbordando agora deles e derivando agora par ao seio dos conventos. E aí estão mais tristes ainda só é possível, mais dolorosos e deplóraveis - estes inqualificáveis pedidos de reforma feitos diante do inimigo, sob a bandeira da pátria varada de balas; três ou quatro talvez que doem mais do que a derrota de uma brigada e cuja notícia chega de um modo lúgubre no seio dos que se aprestam para a luta.

E diante de tudo isto, diante de tantas opiniões desencontradas acerca de um inimigo que permanece inabalável dentro de um círculo de ferro, e que gera tantos males produzindo estas multidões de martires heróicos menos tristes, digano-lo de passagem, do que a meia duzia dos que têm a coragem sobrehumana de dizer ao país inteiro que são cobardes, - diante desta situação realmente indefínivel, justificam-se amplamente todas as dúvidas, compreendem-se as interrogações que fizemos.

E se considerarmos ainda que, realmente, conforme ontem declaramos, este incidente de Canudos é apenas simtomático, faiscando a verdade quem o considerar resumido nas agitações de um arraial sertanejo porque nesta hora mesmo, falo com inteiro conhecimento de causa, nesta grande capital - cuja população, em sua maioria, é de uma nobreza admirável e tem-se revelado de uma generosidade sem par nesta emergência - nesta hora mesma, aqui, há velas que se acendem em recônditos altares e preces fervorosamente murmuradas com prol do sinistro evangelisador dos sertões cujos proselitos não estão todos lá - se considerarmos isto, então, não há conjecturas que se não justifiquem, por mais ousadas que sejam.

Realmente, quem quer que no momento atual, subordinado a uma lei rudimentar de filosofia, procure, neste meio, calcar as concepções subjectivas sobre os materiais objetivos, não as terá seguras e animadoras quando estes são tão incoerentes e desconexos.

Eu desejo, porém, estar em erro; desejo ardentemente que sejam estas linhas divagações exageradas e que o futuro fique eternamente mudo diante daquelas interrogações. Que ao chegar aí esta carta - alarmante, talvez, sincera com certeza - chegue também a nova da vitória, destruindo-a e impedindo a sua publicação.

Nunca desejei tanto receber uma réplica esmagadora, uma contradita vitoriosa.

 
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