MAPA DO SITE BUSCA
 
 
 

Os artigos publicados no O Estado de S. Paulo
Depois de publicar no Estado de S. Paulo, em 14 de março de 1897 o artigo intitulado "A Nossa Vendéia", Euclides da Cunha foi designado como correspondente desse periódico no sertão baiano.

Relação dos artigos enviados pelo escritor e publicados no Estado de S. Paulo, no período de julho a outubro de 1897:

31 de Agosto de 1897 (Publicado em 12 de setembro de 1897)
 

LAGOINHAS - Ao tomar o trem na estação da Calçada prefigurei uma viagem incômoda, preso em vagão estreito puxado por locomotiva ronceira, esmagado por uma temperatura de 30º centigrados mal respirando numa atmosfera impregnada de poeira. Iludi-me. A viagem correu rápida num trem ruidoso e festivo, velozmente arrebatado por uma locomotiva possante, e ao traçar estas notas rápidas do Diário não tenho sobre o dolman uma particula de pó. Pude observar com segurança a região atravessada. Pelo que consegui perceber, a partir de Camassarí, os terrenos antigos do litoral desaparecem prestes sob grandes camadas terciárias de grez - um solo clássico de deserto - em que os taboleiros amplos se desdobram a perder de vista mal revestidos, ás vezes, de uma vegetação torturada.

Em muitos pontos, porém, ilhados como oásis, uma povoação ridente ou um engenho movimentado e de plantação opolenta indicam um floramento da rochas cretácias subjacentes cuja decomposição determina a formação de um solo mais fértil.

Em alguns cortes da estrada pareceu-me distinguir nitidamente a transição entre os dois terrenos: a minha observação, porém, já de sí mesma resumida nos breves horizontes de imperfeitíssimos conhecimentos geológicos, fez-se com condições anormais na passagem rápida de um trem. Mudo cautelosamente de assunto.

A flora é variada e muda continuamente de aspecto - esparsa e rarefeita nos taboleiros em que se alevantam as árvores pequenas das mangabeiras de fôlhas delicadas e cajueiros de galhos retorcidos, salpicada pelas flôres rubras e caprichosas das bromélias - ela ostenta-se, nos terrenos em que despontam as rochas primitivas, exaburante, em grandes cerrados impenetráveis, sobre os quais oscilam as copas altas dos dendísciros (Eleasis guindensis).

Nos pequenos bachados que em alguns pontos margeam os aterros da estrada vi, espalmadas, ajustadas como placas, na superficie lisa das águas ninféias de grandeza surpreendente.

Uma sucessão ininterrupta de quadros interessantes e novos destrói a monotonia da viagem.

A vizinhança de Pojuca é revelada por canaviais extensos que se estendem pelos planios dos taboleiros - miríades de folhas refletindo ao sol com um brilho de aço antigo, ondulantes, vacilando em todos os sentidos ao sopro da viração, um ciciar imenso e indefenido. além do Engenho Central uma casa apruma-se numa colina ligeira. Mal a observo. É uma vivenda histórica.

Recorda um belo nome de político honesto e incorruptivel do passado regíme. O ideal democrático melhor do que qualquer outro firma o culto dos grandes homens, fortalece a solidariedade humana e alevanta a justiça suprema da posteridade eu curvei-me ante a memória veneranda do conselheiro Saraiva. Ainda não desci à concepção estreita de fazer de um grande dia, o 15 de novembro, um valo entre duas épocas. Não ha autos-de-fé na história.

Passemos adiante.

O aspecto do Engenho Central é animador, apezar de uma aparência modesta. Trabalhava quando chegamos e, através da movimentação complicada das máquinas, ouvimos a orquestração soberana do trabalho, alentadora, e forte.

Interessantíssima a vila de Catú, casinhas brancas derramando-se por uma colina ligeiramente acidentada encimada pela igreja matriz que tem à esquerda o clássico barracão de feira, inseparável de todas as cidades e povoações baianas.

Aqui chegamos às cinco e meia.

Alagoinhas é realmente uma boa cidade extensa e cômoda, estendendo-se sobre um solo arenoso e plano.

Ruas largas, praças, imensas; não tem sequer uma viela estreita, um beco tortuoso. É talvez a melhor cidade do interior da Bahia.

Convergem para ela todos os produtos das regiões em torno, imprimindo-lhe movimento comercial notável. Isto, porém, dá-se em condições normais.

Na quadra atual o tabaréo anda esquivo e foragido; a grande praça principal da cidade em cujo centro se alevanta o barracão de feira de há muito não tem, aos sábados, a animação antiga. Cada trem que vai para Queimadas repleto de soldados, cada trem que de lá volta repleto de feridos, é um espantalho assombroso para as populações sertanejas.

Esta situação lamentável reflete-se realmente sobre todas as cidades que se aproximam da zona agitada do sertão. Em todas a mesma apatia derivada de uma situação anormal e ameaçadora. Tanto quanto nós, a população laboriosa almeja, por isto, o termo da campanha.

*****

Devo terminar estas notas registrando um fato que nos interessa muitíssimo. Há cerca de dez dias fui assaltado por uma notícia absolutamente inesperada.

Afirmava-se a deserção de grande número de praças do batalhão de S,Paulo, algumas das quais, em grupos dispersos, haviam sido presas na Feira de Sant'Anna. Faltou-me o ânimo para transmittir a deplorável nova; e foi bom. Transmito hoje a que a destrói inteiramente.

O capitão Gomes Carneiro, do 15º de infantaria - irmão do extrenuo lidador da Lapa - acaba de chegar de Canudos e declarou-me haver encontrado o batalhão paulista nas paragens perigosas do Rosário. Declarou-me que o impressionou de um modo notável a aparêrncia da força.

A despeito de longos dias de penosa marcha ela seguia numa ordem admirável - completa, disciplinada e robusta - conduzindo e guardando cerca de setecentas rezes, destinadas às forças em operações. E - garantiu-me o digno soldado - nos rostos abatidos pelas fadigas não havia a mais ligeira sombra de desânimo.

São 7 ½. Dentro de cinco minutos reataremos a marcha para Queimadas.

 
Home Topo Voltar
 
Copyright 2007 Academia Brasileira de Letras. Todos os direitos reservados.