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Os artigos publicados no O Estado de S. Paulo
Depois de publicar no Estado de S. Paulo, em 14 de março de 1897 o artigo intitulado "A Nossa Vendéia", Euclides da Cunha foi designado como correspondente desse periódico no sertão baiano.

Relação dos artigos enviados pelo escritor e publicados no Estado de S. Paulo, no período de julho a outubro de 1897:

15 de Agosto de 1897 (Publicado em 22 de agosto de 1897)
 

Há dias era o batalhão paulista que aqui saltava, definindo uma ressurreição histórica - a aparição triunfal dos bandeirantes renovando as investidas ousadas no sertão; depois os batalhões do sul, netos e filhos de farrapos, trocando aqueles pampas vastíssimos, alterados, apenas num ou noutro ponto, pelas colinas levemente arredondadas, por um país diverso em que os horizontes se abreviam dentro de vales estreitos e as montanhas aprumadas paralisam as marchas;agora , do extremo norte, da Amazônia, tostados pelos raios verticais dos sóis do equador, são os filhos do Pará que aqui chegam.

Vêm, sucessivamente, promanando de todos os pontos da nossa terra, convergindo todos para o seio da antiga metrópole, reunindo-se precisamente no solo onde pela primeira vez aparecemos na história - o paulista empreendedor e altivo, o rio-grandense impetuoso e bravo e o filho do norte robusto e resistente. E a antiga capital abre-lhes o seio, agasalha-os no recinto sagrado de seus baluartes, despertando, transfigurada da quietude anterior, como que envolvendo no mesmo afago carinhoso e ardente, a numerosa prole há séculos erradia, esparsa.

Índoles diversas, homens nascidos em climas distintos por muitos grãos de latitude, contrastando nos hábitos e tendências étnicas, variando nas aparências; frontes de todas as côres - do mestiço trigueiro ao caboclo acobreado e ao branco - aqui chegam e se unificam sob o influxo de uma aspiração unica.

Parece um refluxo prodigioso da nossa história. Depois de longamente afastados, todos os elementos da nossa nacionalidade volvem bruscamente ao ponto de onde irradiaram, tendendo irresistivelmente para um entrelaçamento belíssimo.

Este espectáculo é eloquentíssimo e justifica de alguma sorte os que - otimistas nesta época tormentosa - vêm nele a feição útil e boa, se é possível, desta campanha inglória.

Não é, certo, a primeira vez, esta, em que se opera uma arregimentação geral de forças e se unem os brasileiros esparsos.

O caso atual, porém, é, sob muitos aspectos, o mais expressivo de todos. Não se trata de defender o solo da pátria do inimigo estrangeiro; a luta tem uma significação mais alta e terá resultados mais duradouros.

Observo-a de perto, sinto de perto a comoção extraordinária que abala, aqui, todos os nossos patrícios; e interpretando com segurança essa uniformidade extraordinária de vistas que identifica na mesma causa elementos tão heterogêneos - creio que a organização superior da nossa nacionalidade, em virtude da energia civilisadora acréscima, repele, pela primeira vez, espontaneamente, velhos vícios orgânicos e hereditários tolerados pela política espectante do império.

Porque, realmente, este incidente de Canudos é apenas sintomático; erramos se o considerarmos resumido numa aldeia perdida nos sertões. Antonio Conselheiro, espécie bizarra de grande homem pelo avesso, tem o grande valor de sintetisar admirávelmente todos os elementos negativos, todos os agentes de redução do nosso povo.

Vem de longe - repelido aqui, convencendo mais adiante, num rude peregrinar por estradas aspérrimas - e não mente quando diz que é um resuscitado porque é um notável exemplo de retroatividade atávica e no seu misticismo interessante de doente grave resurgem, íntactos, todos os erros e superstições dos que o precederam, deixando-lhe o espantoso legado.

Acredita que não morrer porque presente, por uma intuição instintiva, que em seu corpo fragílimo de evangelisador exausto dos sertões, se concentram as almas todas de numa sociedade obscura, que tem representantes em todos os pontos da nossa terra.

Arrasta a multidão, contrita e dominada, não porque a domine, mas porque é o seu produto natural mais completo.

É inimigo da Republica não porque lhe explorem a imaginação mórbida e extravagante de grade transviado, mas porque o encalçam o fanatismo e o erro.

E surge agora - permaneceu em vida latente longo tempo e devia aparecer naturalmente, logicamente quase, ante uma situação social mais elevada e brilhante, definida pela nova forma política como essas sementes guardadas há quatro mil anos no seio sombrio das pirâmides, desde os tempos faraônicos, e germinando espontaneamente agora, quando expostas à luz.

Daí a significação superior de uma luta que tem nesta hora a vantagem de congregar os elementos sãos da nossa terra e determinar um largo movimento nacional tonificante e forte.

Porque - consideremos o fato sob o seu aspecto real - o que se está destruíndo neste momento não é o arraial sinistro de Canudos: - é a nossa apatia enervante, a nossa indiferença mórbida pelo futuro, a nossa religiosidade indefínivel difundida em superstições estranhas, a nossa compreensão estreita da pátria, mal esboçada na inconsistência de uma população espalhada em país vasto e mal conhecido; são os restos de uma sociedade velha de retardatários tendo como capital a cidade de taipa dos jagunços...

Escrevo no meio agitado dos que se aprestam rapidamente para a campanha; observo-lhes o sentimento uniforme irrompendo de temperamentos diversos e prevejo os resultados positivos desse movimento cuja feição destruidora é um incidente transitório.

E por uma coincidencia notável é dentro da antiga metrópole que ele se realisa; aqui se aliam hoje compatriotas que chegam dos mais afastados pontos. Vão suportar juntos os mesmos dias penosos, ligados materialmente pelos mesmos trabalhos e pelos mesmos perigos nas marchas difíceis e na batalha, ligados espiritualmente pela mesma aspiração, comungando sob o mesmo ideal - e ao voltarem amanhã, uma aliança moral mais firme dirimirá talvez a distância entre o sul e o norte, tornará com certeza mais harmônicos os variados fatores da nossa nacionalidade.

Essa quadra difícil traduzirá então, somente, um rude trabalho de adaptação a condições mais elevadas de existencia; evolvemos.

Além disto recebemos uma lição proveitosa e inolvidável.

Os que governam reconhecerão os inconvenientes graves que resultam, de um lado dessa insciência deplorável em que vivemos acerca das regiões do interior de todo desconhecidas muitas, e, de outro, o abatimento intelectual em que jazem os que as habitam.

Sobretudo este último é um inimigo permanente.

Quando voltarem vitoriosas as forças que ora convergem aqui, - completemos a vitória.

Que pelas estradas, ora aberta à passagem dos batalhões gloriosos, que por essas estradas amanhã silenciosas e desertas, siga, depois da luta, modestamente, um herói anônimo sem triumfos ruidosos, mas que será no caso vertente, o verdadeiro vencedor:

O mestre-escola.

*****

Aguardando ainda, aqui, a próxima partida para os sertões, e sob a sugestão perene dos quadros que tenho exposto, mal releio as linhas que escrevo, longe da tranquilidade de um gabinete de estudo e da inspiração serena dos livros prediletos.

É possível que das notas rápidas de um diário, em que os períodos não se alinham, corretos, disciplinados e calmamente meditados, ressumbrem exageros; é possível mesmo que eu os releia mais tarde com surpresa. Mas nessa ocasião estarei como os que agora as lêem - fora do círculo hipnótico de um entusiasmo sincero e não terei, como agora tenho, diante de mim a visão deslumbrante de uma pátria regenerada -, ao ver passar, ao rítimo retumbante dos tambores, os titans bronzeados que chegam do norte numa reviviscência animadora de energias...

 
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