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Depoimento da Professora Doutora Walnice Galvão
 

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Depoimento da Professora Doutora Walnice Galvão
Gravado em 18/09/2003

Pensando em fazer uma abordagem propriamente literária da obra de Euclides da Cunha, gostaria de me ater sobretudo a Os sertões, porque creio que de tudo que ele escreveu é realmente aquilo que merece maior atenção, maior exame, e um olhar mais apurado por parte de todos nós que nos interessamos pela obra de Euclides da Cunha. É um livro grande, com muitas páginas, difícil de ler, assim como foi muito difícil de escrever para o próprio Euclides.

Muito analisado, muito estudado, o livro fez cem anos em 2002, tem um século de fortuna crítica, e passou por várias fases de bem-querer, de malquerer, embora uma coisa muito curiosa seja que, ao longo de toda a sua história, tenha agradado tanto à direita quanto à esquerda, tanto ao exército quanto aos civis, e assim por diante.

Como acontece com todo o grande livro, a fortuna crítica depende da recepção que uma certa época faz, e que muda daí a pouco; a cada vinte, trinta anos, essa recepção muda de caráter. Isto tem acontecido com Os sertões também. No meu caso, prefiro fazer uma abordagem literária porque, a meu ver, é o que dá coerência ao livro e faz com que ele tenha sentido, apesar de todo o caráter heteróclito dos materiais que ele usa.

Assim, por exemplo, o que nós vamos encontrar na composição de Os sertões? Quase que se pode dizer que entrou tudo na composição de Os sertões. Por exemplo: Euclides se sentiu muito inseguro quanto ao entendimento, à compreensão daquilo que ele tinha assistido em Canudos, de modo que ele foi estudar. Foi estudar Antropologia, foi estudar Direito, foi estudar História do Brasil, História da Colonização, foi estudar a teoria sobre raças, ele foi acumular um saber imenso. O livro tem uma ambição enciclopédica que eu creio ser visível, não é? Como se não bastasse o fato de ele ter presenciado a guerra, ser testemunha de corpo presente, ele ainda usou no livro tudo quanto foi Ordem do Dia do Exército, as reportagens que os jornais publicaram, as notícias que saíram sem ser reportagens, os livros que estudaram o assunto, e que foram escritos antes dele, que foram publicados antes de Os sertões, coisas de folclore, os papéis que foram achados em Canudos.

Quer dizer, o saber de Euclides realmente é uma coisa espantosa e tudo isso, evidentemente, fica carecendo de uma síntese. Qualquer leitor, quando perpassa ou pervaga pelas páginas de Os sertões, observa que há muita paráfrase por exemplo. Euclides parafraseia alguma coisa que o Sílvio Romero disse, e mais adiante, ele parafraseia uma pessoa, um autor que disse uma coisa oposta ao que o Sílvio Romero disse, e ele não é capaz de fazer a síntese entre as duas posições.

O procedimento normal do livro é antitético, como a antítese é a figura predileta dele, isto é, ele coloca uma opinião que não é dele, que é de outro autor; em seguida, ele coloca uma outra opinião, que contradiz aquela, e ele não opera a síntese entre as duas. Ele não é capaz de operar a síntese, provavelmente porque o assunto é tão complexo, e a dificuldade de lidar com ele é de tal ordem, que vamos dizer que as duas posições antitéticas ficam no ar, sem nunca atingir uma solução, e isso acontece com o livro inteiro.

Nós podemos encontrar, por exemplo, páginas e mais páginas explicando que o Antônio Conselheiro, era um heresiarca, era um profeta equiparável aos do cristianismo primitivo, que ele era um místico, um homem que só pensava em uma personagem de alta estatura histórica etc. Em seguida, encontramos outras tantas páginas, que dizem que ele era um louco, que era um bufão, que ele era um truão, que ele só falava bobagem, que ele delirava, e assim por diante. Que ele era hereditariamente um mentecapto e coisas - como diria Euclides da Cunha - desse jaez.

A respeito de tudo, Euclides expõe duas posições antitéticas, e isso no livro inteiro. O livro inteiro é montado com figuras de oposição, de contradição. As oposições, as próprias contradições, o paradoxo, a antinomia, a antítese, e acima de todas elas, todas essas oposições culminam na utilização da figura retórica do oxímoro, na qual Euclides da Cunha, vamos dizer assim, materializa a impossibilidade da síntese. Ele não pode sintetizar, então, coloca lá um oxímoro que tem os dois elementos extremamente opostos um do outro - que é a definição do oxímoro - e ele deixa aquilo lá sem solução.

Isso é o que acontece, por exemplo, com o Hércules / Quasímodo, com que ele define o sertanejo, não é? Eu não aprecio esse oxímoro, eu o acho de má qualidade porque, primeiro, não tem um som bonito, ele soa mal; e depois, porque ele chega às raias do pedantismo, opondo duas coisas que não têm nada que ver com o assunto de Os sertões, nem com Brasil. Ele pega o Hércules, que é um semideus grego, a mais forte das personagens da mitologia grega, e opõe ao Quasímodo, que é a personagem de Nossa Senhora de Paris, de Victor Hugo. Aquele corcunda, todo disforme, o sineiro da torre da catedral, que é personagem importante, senão o próprio protagonista desse romance de Victor Hugo. Quer dizer, ele é o oposto do Hércules, o Hércules é o oposto do Quasímodo. Você pensa que um semideus grego é belo, e o Quasímodo é um monstro horroroso.

Então, o que o sertanejo é, afinal das contas? Ele é as duas coisas ao mesmo tempo. Não há síntese possível entre as duas figuras. Então, uma fonte é a mitologia grega, a outra fonte é o romance romântico. Mas ele produz muitos oxímoros, não é só esse. Eu separaria, porque é um dos meus prediletos, senão o meu predileto, eu separaria para exame o Tróia de Taipa, epíteto com que ele brinda o Arraial de Canudos. Muito bonito, muito sonoro, porque é todo baseado em aliterações, são duas palavras começando com T - Tróia e Taipa. O de que fica no meio é o mesmo fonema T, só que, na sua versão sonora, um é surdo, outro é sonoro. As duas palavras são dissílabas, portanto do mesmo tamanho; as duas começam por um ditongo, ói no caso de Tróia e ai no caso de Taipa, ditongo que cai na sílaba tônica; e as duas palavras terminam por a. Portanto, é de uma simetria e de uma felicidade poética única a arquitetura desse oxímoro.

Isso só para falar do significante; quanto ao significado, combina, vai buscar um eco homérico para dignificar Canudos. Traz um eco homérico de uma cidade de mármore, cidade amuralhada, que tinha palácios e tinha ouro e tinha tesouros, e que está lá vibrando na Ilíada, na Odisséia também, porém mais na Ilíada, até hoje. E usa esse tesouro para falar de humildes sertanejos, que moravam num arraial muito precário. Aí, então, entra a outra parte que é a Taipa, quer dizer, combinando a preciosidade de Tróia com a humildade da taipa, que é um modo típico de construção de casebre do pobre brasileiro. Eu penso que esse oxímoro é realmente uma jóia. Nem todos são felizes, como o Hércules / Quasímodo, a meu ver, não é feliz. Mas esse é de uma extrema felicidade, isso é grande literatura.

Euclides da Cunha estava se deparando com um material que ele não entendia, que ele gastou miolo para entender durante muitos anos. Foi uma coisa que mudou a vida dele, nunca mais foi a mesma pessoa, depois que ele presenciou aquela guerra.

O que é muito bonito é que nas páginas de Os sertões aparece a crise de consciência que foi para lá, como todo mundo tendo sofrido uma lavagem cerebral. Então, quando você lê os outros livros, as outras reportagens dos jornais da época, você mais ou menos percebe que todo mundo saiu do Sul - alguns saíram do Amazonas -, mas enfim, todo mundo saiu de onde estava e foi se reunir em Canudos, já sabendo o que devia pensar. E os jornalistas já sabendo o que iam informar.

Previamente, então, todo mundo estava de partido tomado, todo mundo era contra os pobres dos sertanejos, que eram considerados fanáticos, atrasados, supersticiosos, monarquistas, e todas essas outras coisas que, no Brasil da época, era aquilo que queria se varrer para debaixo do tapete. Quer dizer, o país tinha dado um salto na direção do Conselho das Nações, no momento em que derrubou o imperador porque, vamos dizer assim, a consciência letrada brasileira tinha muita vergonha de pertencer a um país em que tinha rei e escravo, não é? Porque uma nação moderna que se prezasse não tinha nem rei nem escravo, era uma república de homens livres.

O Brasil tinha essa infelicidade  por causa da sucessão portuguesa, quando se fez a Independência. Enquanto todos os outros países da América Latina, com exceção de Cuba, se tornaram nos anos de 1820 a 1830 repúblicas de homens livres, o Brasil foi o único país que continuou uma monarquia escravista. E isso era tido como se a gente vivesse no ancien régime, quando todo mundo já estava anos-luz à nossa frente. No momento, então, que a República é proclamada, o Brasil deu um salto na modernidade, vamos dizer assim, e como é que estoura logo depois essa revolta contra a República? É um absurdo, quer dizer, uma revolta que era, ao mesmo tempo, monarquista e católica, não podia haver pior combinação.

Assim, o Brasil inteiro se pôs contra, porque tinha vergonha que houvesse esse resquício de superstição, de atraso, de barbárie, no meio daquele clarão de modernidade, que se anunciava com tanta fanfarronada. E todo mundo que foi para lá já sabia que pensava isso, e que aquele foco de monarquismo reacionário tinha que ser exterminado. Foi por isso, inclusive, que Euclides da Cunha utilizou a expressão “a nossa Vendéia”, que foi tão feliz, que todo mundo repetia, todo o mundo glosava etc. - e que era o título provisório de Os sertões, foi só depois da guerra que ele mudou. Ele viu que aquilo não era Vendéia nenhuma. Foi pegar em outro romance do Victor Hugo, Noventa e três, que trata da Revolta da Vendéia e que foi uma revolta , católica e monarquista, de uma aliança entre camponeses e nobres, na região da Vendéia, na província da Vendéia, contra a Revolução Francesa, que era republicana, laica etc.

O paralelo foi feito imediatamente, e é um paralelo que dá até pena de pensar nele, porque era assim: nós aqui fizemos a Revolução Francesa, então, os canudenses são contra a Revolução Francesa. E o Exército, que se julgava o braço armado do Terceiro Estado, foi lá para massacrar o Terceiro Estado, feliz da vida porque estava defendendo a Revolução. É um equívoco em cima do outro, vários equívocos entrelaçados, que ninguém sabe como puxar a ponta, e Euclides da Cunha soube. Mas o que é bonito no livro é que ele não começa pela conclusão. Ao mesmo tempo em que ele está escrevendo, é que ele está deslindando a questão. Você vê no livro, página por página, a expressão da aquisição de um saber, de uma compreensão por essa consciência dilacerada, que ele expressa no livro, do começo ao fim.

Isso não existe em nenhum outro escrito sobre Canudos, nem antes nem depois, e eu penso que é isso que dá o grande valor literário do livro, e que faz, inclusive, que ele seja lido ainda hoje, apesar de toda a dificuldade de leitura. Aquelas frases longuíssimas que nunca terminam, nunca chegam no ponto final, com o andamento exasperado dessa contradição em cima de oposição, em cima de antítese etc. Com toda a ciência mal digerida que tem, além daquelas todas que mencionei, ainda tem todas as matérias que ele aprendeu na Escola Militar, como um aluno aprende, não mais do que isso: Zoologia, Botânica, Constituição Brasileira, Balística, Castrametação (construção de acampamentos, assentamento de acampamentos) e um monte de Ótica. Ótica também ele estudou, um monte de outras matérias que estão no currículo escolar dele, e que vai tudo lá para tantas páginas de Os sertões, muito mal amalgamado, muito mal sintetizado, não está sintetizado, aliás.

Contudo, isso é de uma grandeza tal, que torna o livro ainda mais fascinante que aquilo que já seria normalmente. É quase como se a gente pudesse dizer -  se não for um pouco de pretensão dizer uma coisa dessas, ter a coragem de dizer uma coisa dessas - que é um conjunto de erros tão grande, que se torna um acerto. Penso que, só assim, eu poderia mais ou menos entender. Ou é de uma grandeza tal, que os erros se tornam insignificantes.

Era isso que eu queria dizer. Muito obrigada.

 
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